segunda-feira, 13 de abril de 2009

Me despache!



Domingo de sol em Madre de Deus (foto), pacata cidade de mar verde-azul ao fundo da baía de Todos os Santos, a uma hora de Salvador. Entro na lanchonete da cidade onde mora minha prima Graziele, em frente ao Estádio Municipal --local da vitória do time local em cima do Bahia na semana passada.

Como bolinho de carne com suco de graviola. Eis que, de repente, entra no estabelecimento uma menininha negra, de uns sete anos. Ela vem com uma moedinha de dez centavos na mão. Em alto e bom som, grita: "Me despache!"

Fico encabulado com a nova expressão. Logo, vem a dona da lanchonete e pergunta o que a garota quer. Ela pega dois chicletes. Pergunto à pequenina: "Menina, o que significa 'me despache'?" Ela me ignora, revoltada com meu atrevimento e ignorância.

Logo, meu primo Danilo Barbosa Ribeiro me acude. "Quer dizer me atenda, ora". "Mas isso não soa mal educado?", retruco. Ele finaliza: "Não, na Bahia se fala assim".

PS. Ah, por aqui, eles também não bebem bebidas alcóolicas. Eles comem água. Agora, não me pergunte por quê. Coisas da Bahia, terra de verdadeiros e grandes comedores de água.

sábado, 11 de abril de 2009

Coluna do Miguel Arcanjo nº 155

Nota de luto



Coisas de férias: descubro agora, numa lan house da rodoviária de Salvador, por um aviso via internet da repórter da Folha Online Gabriela Quintela, minha amiga querida, que o ator paulista Francarlos Reis morreu na última quarta, 8, de infarto fulminante, em seu apartamento, que fica a um quarteirão do meu, em São Paulo. Dói profundamente receber esta notícia.

Francarlos sempre foi um exemplo para mim de caráter, de profissionalismo e, antes de tudo, de talento. O conheci na época de "My Fair Lady", quando ele fazia magistralmente --e roubava a cena-- o pai da protagonista, interpretada por minha amiga Amanda Acosta.

Lembro-me de certa noite, Amanda, Francarlos e André Fusko, o marido de Amandinha, estarmos todos sentados numa mesa movimentada do restaurante Luna di Capri, após uma sessão de teatro, jogando conversa fora. Ele era o centro das atenções na mesa, tamanho o carisma. Dava aula e falava mal dos jovens atores da televisão e de sua mediocridade intelectual e de talento --não de todos, evidentemente, mas dos saradões e gostosinhas sem nada na cabeça. E me cobrou uma matéria que havia feito sobre "My Fair Lady" na revista Contigo!. "Você não me mandou pelo Correio. Quer anotar de novo o endereço?", falou, para concluir, com deboche: "Vocês jornalistas nunca mandam!"

Foi Gabriela Quintela quem, provavelmente, fez uma das últimas entrevistas de Francarlos. Quatro dias antes, ele estava do mesmo jeito enérgico e vivo durante nossa conversa nos bastidores do primeiro ensaio-geral de "A Noviça Rebelde" em São Paulo, que cobri para o Agora. Estava todo satisfeito em voltar aos musicais.

A imagem dele que vai ficar para mim, além da presença arrebatadora nos palcos, é a que tinha às manhãs ao sair do meu prédio: vê-lo na esquina das avenidas São João e Duque de Caxias, com sacolas em punho, voltando do supermercado ou da padaria, a caminho de seu apartamento, na alameda Barão de Campinas.

Às vezes, ao sair da Folha para almoçar com a Gabi, víamos ele na portaria do prédio, tomando ar na calçada. O cumprimentávamos, e ele sorria, dava notícias dos ensaios e das futuras peças. É triste vê-lo partir. Dói fundo. O teatro brasileiro se cala mais pobre. E bem mais pobre fica quem não viu Francarlos Reis no palco ou na vida.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Crítica: Quando a morte está à espreita

Por Miguel Arcanjo Prado

Por mais que Regina Braga e Rodolfo Vaz sejam excelentes atores, "Por um Fio" não encantou o público curitibano. Tanto que muitas pessoas deixaram --ato que demonstrou falta de educação da plateia-- o teatro da Reitoria durante a estreia da encenação no último dia 23, no Festival de Curitiba.

A adaptação do livro homônimo escrito pelo médico Drauzio Varella --marido de Regina-- ganhou direção de Moacir Chaves, que, fiel ao livro, transformou seus atores em meros repetidores das histórias de Varella.

Falta ação cênica à montagem que virou um grande jogral dramático. Para completar, a cenografia de J C Serroni completa acentua ainda mais o clima de frio na espinha que a peça fala, já que trata de um tema por demais denso: histórias de pacientes em estado terminal de câncer.

Ao invés de ajudar, o cenário --que transforma o palco numa praça européia de um inverno cruel, mesmo que o texto fale de casos acontecidos no bairro do Tatuapé, zona leste paulistana-- prejudica a montagem. Nervosa com a debandada do público, Regina se atropelou com o texto várias vezes.

Mesmo com os incidentes, a dupla de atores foi profissional até o fim. Quem aguardou o aplauso ficou marcado pela tristeza que a montagem faz e também com vontade de corrrer ao hospital mais próximo para fazer um check up.

PS. O público paulistano poderá conferir a peça a partir de 3 de abril, no teatro do Sesc Consolação.

Foto: Kelly Knevels/Clix

terça-feira, 24 de março de 2009

Crítica: Quatro jovens em busca do pop

Por Miguel Arcanjo Prado

O “Rehab” na voz de Amy Winehouse que a platéia escuta já do lado de fora do TUC, serve de pré-ambientação para “Óquei!”, montagem que a Cia. Transitória apresenta neste Festival de Curitiba –recurso igual, inclusive a mesma música, era utilizado no espetáculo “Sexo Verbal”, que cumpriu temporada recente em São Paulo. Mas tudo bem, Amy é mesmo muito boa e o melhor: é da nossa geração.

De repente, some o vozeirão de Amy e o público é convidado a entrar. Logo, o espectador vê o CD virar vitrola anos 80, com Madonna acima de tudo e todos com sua batidíssima e ainda ótima “Like a Virgin”. Vestidos com ares futuristas, o quarteto Kelly Eshima, Flávia Sabino, Thiago Inácio e Zé Eduardo se saracoteiam tal qual os bailarinos da diva pop. Descem, levantam, jogam as pernas e fazem coreografias de jogos sexuais.


Vestidos com biquínis e sungas, os atores são cobertos com capas de chuva transparentes e calçam galochas de plástico, o que transparece o ar futurista-pop almejado com afinco pelo jovem grupo.

Após a dança enérgica, eles começam a falar o texto de David Ives, sentados em duas cadeiras, com os sugestivos nomes de Madonna e Caetano. O quarteto se reveza na disputa por um lugar, sempre ocupado por outro que há de vir, num descortinamento da dificuldades das relações humanas por mais simples que sejam e da tensão sexual presente em todas as relações.

Outras referências gays além das já citadas surgem, como a música “Eu Comi a Madona”, de Ana Carolina. Bem-humorada, a montagem utiliza-se até de um axé coreografado em um dos momentos de maior bizarrice.

Outra cena divertida é quando o elenco utiliza-se de bichos de pelúcia para repetir o texto dado anteriormente por eles. Fica divertido e provocativo. Tem um quê de adolescente que não sabe para onde ir e volta automaticamente à infância, quando tudo era possível e dado. Uma quase síndrome de Peter Pan.

Além dos bichinhos, há até a referência do pastelão, como quando eles jogam água uns nos outros, arrancando risinhos simpáticos da plateia da mesma forma que "O Gordo e o Magro" faziam.

A montagem é despretensiosa e cumpre o que promete: mistura tudo o que é possível em um caldeirão de referências múltiplas e essencialmente jovem e pop.

Foto: Lina Sumizono/Clix

Crítica: "Oceano" - Com um ingresso lá você paga uma fileira aqui

Por Miguel Arcanjo Prado

Foi com a frase que titula este texto que um integrante da montagem "Oceano" agradeceu a plateia da Ópera de Arame, no Festival de Curitiba, no último domingo. Ele fazia referência aos preços exorbitantes da trupe do Cirque du Soleil em comparação ao de seu grupo: R$ 40.

A afetação em excesso do ator que faz o papel do menino que vive uma aventura no oceano fantástico dentro de sua banheira --onde perde seu patinho amarelinho-- não prejudica a montagem, que trouxe efeitos visuais e um belo cenários para o evento. Em meio à água do lago que circunda a Ópera de Arame, a montagem ganha mais força.


Os palhaços divertem, mas o número do homem que levanta outro com um braço só é de deixar todo mundo de boca aberta. Apesar de ainda precisar apurar mais a técnica de muitos de seus integrantes e diminuir os erros diante dos olhos do público, o espetáculo cumpriu sua proposta básica explicitada no fim: ser um quase Cirque du Soleil tupiniquim. E por que não?

Foto: Daniel Sorrentino/Clix

sábado, 21 de março de 2009

Coluna do Miguel Arcanjo 154

Festival de Curitiba - Primeiros Ares

Voltar ao Festival de Curitiba dá a sensação de que tudo mudou e que tudo continua a mesma coisa. Não eu, evidentemente. Agora, escrevendo para jornal e não para site, consigo ter um pouco mais de paz. Mas tenho a sensação de déjà vu em muitos momentos. Aqui estão os atores correndo atrás de jornalistas que vejam e critiquem suas peças. As estrelas globais --dessa vez, em número bem menor do que em 2008-- atraindo mais atenção que a turma do teatro --a minha inclusive. As peças experimentais, as peças-lixo --uma quantidade incontável-- e também as gratas revelações. Estar em Curitiba é como fazer uma garimpagem cultural. Mas também é a hora de rever amigos queridos feitos aqui no ano passado, como o Leandro Knopfholz, coordenador do evento, a Mônica Santanna e o Eduardo Simões, da assessoria de imprensa, e o Daniel Sorrentino, que cuida da Clix, a agência fotográfica que produziu as belas imagens deste post. De toda forma, morno ou não --a crítica do jornalista e agora ator da Cia dos Satyros Alberto Guzik na matéria do meu colega Lucas Neves na "Folha de S.Paulo" está movimentando as línguas teatrais--, uma coisa é certa: não há no Brasil festival teatral melhor que este.

Azeda

Marília Gabriela, que está em Curitiba com o monólogo "Aquela Mulher", dirigido pelo colega de Portelinha Antonio Fagundes, mostrou um pouco da sua habitual mistura de arrogância e amargura ao recusar convites para entrevistas. Alegou que guardava a voz para usar no palco. Enquanto isso, grupelhos iniciantes dão a vida por um jornalista na reta. Mundo ingrato!

Simpatia só

Thiago Lacerda, o mais famoso do evento, está um show de simpatia. Conversa com quem lhe aborda, dá aquele sorrisão aberto e fala sobre o que perguntarem. Ele que não é bobo nada trouxe o filho e a mulher para o festival. Segue sempre acompanhado pela turma de "Calígula", que inclui os bambambãs do teatro Pascoal da Conceição e César Augusto --que deixou o Antunes Filho para estar ao lado do meu conterrâneo Gabriel Villela. Prova que galã também é gente.

Epifania

A montagem "Inveja dos Anjos", da Armazém Cia. de Teatro, fez bonito na sua estreia --apesar de meu muito sono, devido à festa de dez anos do "Agora" na última quinta. A peça é cheia de loucura e pequenas verdades escondidas, como costuma ser a vida de todo mundo, com direito a momentos de epifania para ninguém botar defeito. Epifania, taí uma palavra que meu primo Marcelo Junio Gonçalves adora. Acho que ele adoraria a peça também.

Ela é uma graça

Na coletiva de "Zoológico de Vidro" Karen Coelho entrou muda e saiu calada. Mas não deixou de encantar com seu charme de menina recatada, daquela tipo interiorana. Tinha que fazer mocinha de novela das seis. Depois veio pertinho de mim e conversamos um bocadinho. Ela é mesmo uma gracinha de menina. Ao contrário da jornalista-atriz.

O amor de Cássia

Cássia Kiss anda amando, amando, amando. Todo mundo já sabe disso e até fiz uma matéria no "Agora" sobre o assunto. Mas ela não cansa de repetir: "É impressionante achar o homem da minha vida aos 51 anos", disse aqui em Curitiba. O elenco de "Zoológico de Vidro" está agradecido ao médico João Baptista. Tanto que ele anda sendo chamado de "São João" pelo diretor Ulysses Cruz.

Fotos: Daniel Sorrentino, Kelly Knevels/Clix

quinta-feira, 12 de março de 2009

Milk - A Voz da Igualdade


Gabriela Quintela chamou-me para ir ao cinema no último domingo. Disse que queria ver "Milk - A Voz da Igualdade". Já havia ouvido falar no filme indicado a oito Oscars e que deu o de melhor ator a Sean Penn. Lendo rapidamente a matéria da minha colega Ana Carolina Rodrigues no caderno Show! do jornal Agora tive um pouco da ideia do longa, mas já havia me esquecido dos detalhes do texto da Carol quando combinei com a Gabi. Escolhemos ir no Unibanco da rua Augusta. Correria no metrô, chegamos à sala 1. Vimos o filme em silêncio, aproveitando cada momento. Ao fim, lágrimas generosas escorriam diante da lucidez e coragem daquele homem que descobriu que podia fazer história a partir dos 40 anos de idade. Viveu tudo que tinha pra viver em uma década, como Cazuza. E deixou legado. Uma verdadeira lição de vida contra a acomodação e a mediocridade. Harvey Milk ensina que nunca é tarde demais para se reinventar e ser feliz. Porque a vida é rápida e passa num piscar de olhos. Tá esperando o que pra correr para o cinema mais perto de você?


Aproveitando a deixa, clique aqui e vote na campanha nacional contra a homofobia!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Menina Mallu


Os pseudo-cults da mídia resolveram eleger a menina Mallu Magalhães como fenômeno musical no ano passado. Tanto bateram nesta tecla, que conseguiram. A menina saiu em tudo quanto é canto, claro, sobretudo a um forte esquema --leia-se grana e poder-- atrás dela. Tanto que chegou ao olimpo da música televisiva: o "Domingão do Faustão", no último domingo. Só que a passagem dela por lá mostrou ao Brasil todo o que eu descobri ao entrevsitá-la no último VMB da MTV. Bom, veja você mesmo aqui. A única pergunta que faço é a seguinte: como o Marcelo Camelo aguenta isso aos 31 anos?

terça-feira, 10 de março de 2009

A gracinha faz 80 anos



Por Miguel Arcanjo Prado*

Ícone feminino, Hebe Camargo completa 80 anos hoje, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. As oito décadas poderiam ser um conto de fadas: de gata borralheira, a apresentadora se tornou a dama da TV brasileira.

“Nunca menti idade. Agora, não é que eu me preocupe. É que eu fico com peninha, porque o tempo é mais curto. Sobra pouco para me divertir e gozar a vida”, afirma a apresentadora, que recebeu o Agora, na última segunda, em seu camarim, no SBT.

Hebe falou sobre sua trajetória na TV _ela foi reprovada no primeiro teste_ e do momento atual. “Enquanto tiver essa saúde fantástica, quero me divertir. Vou fazer TV enquanto estiver alegre, feliz, brincando no palco. Quando ficar uma coisinha meio murcha, eu digo: ‘Bye, bye, Brasil’.”

Mas o dia é de comemoração, e Hebe só quer festejar. Além de ganhar quatro programas especiais no SBT, a apresentadora terá uma festa “black tie” hoje à noite, na mansão da empresária e amiga Lucília Diniz, em São Paulo. Ela, que não quis saber dos detalhes da comemoração, diz que tudo será uma grande surpresa.

No banquete, para 500 convidados, não faltarão presenças ilustres. O prefeito Gilberto Kassab, o governador José Serra e até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão entre os convidados. À la Hebe, todos ganharão uma joia de lembrança.

Infância pobre

As muitas joias de hoje contrastam com a vida da menina do interior. Vinda de Taubaté para a capital paulista, Hebe morou em um porão. Filha da dona-de-casa Ester e de um violinista de nome complicado, Sigesfredo Camargo, que logo virou apenas o seu Fego, a garota tinha como passatempo adivinhar quem passava na rua. “Ficava brincando de adivinhar se eram pés de homem ou de mulher”, recorda.

Como a grana era curta _com o fim do cinema mudo, o pai havia perdido o emprego no cinema de Taubaté_, Hebe trabalhou como empregada na casa de uma tia rica.

Ao rever o começo difícil, a dama da TV não faz drama. “Passei as dificuldades pelas quais todo mundo passa, de quem não é nada e precisa conseguir uma chance. Precisava limpar a cozinha da minha tia para conseguir dinheiro para pagar o bonde e ir cantar em programas de calouro”, diz. De microfone em microfone, emancipou-se. “Ia cantar, independentemente do quanto iria ganhar. Ganhava uma ‘porcariinha’, mas, de qualquer maneira, era uma ‘porcariinha’ que fazia toda a diferença”, recorda.

Hebe chegou a participar de um quarteto com a irmã, Stella, e duas primas, o Dó-Ré-Mi-Fá, que logo acabou. Depois, foi a vez de fazer a dupla Rosalinda e Florisbela, com Stella. Mas a luz própria projetou o voo solo. Fã de Carmen Miranda, logo virou a Moreninha do Samba. Os cabelos loiros só seriam incorporados ao visual em 1957, quando engrenou na televisão.

Reprovada no teste

Misturada desde cedo à turma do rádio, Hebe fez parte da comitiva que acompanhou o todo-poderoso das comunicações Assis Chateaubriand (1891-1968) ao porto de Santos para buscar a parafernália eletrônica que inauguraria a televisão no Brasil, em 1950. “Era completamente ignorante, não sabia de nada. Via os caminhões e achava que os caixotes iam começar a filmar todo mundo [risos]. Fiquei sem ar ao ver aquelas coisas saindo do navio. Teve um grande almoço no Guarujá, com o Chateaubriand, o Dermival Costa Lima [diretor da Tupi], a Sarita Campos [apresentadora da Tupi], o Walter Forster [ator que mais tarde daria o primeiro beijo da TV, na atriz Vida Alves]. Guardo até hoje a foto em que estou de vestidinho estampado.”

Pode até soar estranho, mas Hebe não passou no primeiro teste. “Fui reprovada. Fizeram o teste no corredor mesmo. Montaram as câmeras e me colocaram na frente. E disseram: ‘Está reprovada. Essa imagem está horrível’. É que a minha sobrancelha era igual à da Malu Mader, bem grossa, e eles diziam que a imagem estava escura. Mas eles não tinham técnicas de iluminação. Não é engraçada essa história? Fui reprovada e estou aqui até hoje. Já os que me aplicaram o teste morreram todos.”

Hebe teve padrinhos, mas não gosta de enumerá-los. “É porque todo mundo já morreu. Tem o Dermival Costa Lima, que era diretor da rádio Tupi, teve o Gilberto Martins [diretor da Tupi], que também já morreu. Está vendo? Se continuarmos falando nisso, vamos parar no cemitério [risos].”

Feminista e dona-de-casa

Hebe teve sua grande chance em 1955, quando recebeu o convite do galã que virou diretor. “Fui convidada pelo Walter Forster, criador do programa ‘O Mundo É das Mulheres’. Era feito por cinco mulheres. Toda semana, a gente convidava um homem. No momento do encerramento da entrevista, pressionávamos o entrevistado a dizer que o mundo era das mulheres. Mas não era coisa nenhuma! As mulheres naquela época não tinham evidência. Elas não saíam de casa para trabalhar, eram mais donas-de-casa, mulheres e mães. Foi daí que começou essa coisa de as mulheres arregaçarem as mangas”, analisa.

Mesmo antecipando o discurso feminista, Hebe sucumbiu à regra de comportamento de seu tempo. Ao se casar, em julho de 1964, com o empresário Décio Capuano, resolveu que tinha de abandonar a TV. No ano seguinte, nasceu seu primeiro e único filho, Marcello Camargo. “Achei que, como iria me casar, tinha de ser dona-de-casa”, afirma.

Mas a televisão não aceitou perdê-la para o marido. “Nunca paravam de me enviar convite. Um dia, fui com meu filho, o Marcello, que só tinha 30 dias, participar do programa ‘Corte Rayol Show’, que era feito pelo Agnaldo Rayol e pelo Renato Corte Real, na Record. Ao saber que eu estava na emissora, Paulinho Machado de Carvalho [então diretor da emissora] foi ao camarim e falou: ‘A gente queria demais que você voltasse para a televisão.’ O Décio acabou concordando, e eu voltei para nunca mais sair.”

Tempos modernos

O casamento com Capuano acabou em 1971. Dois anos depois, casou-se com o empresário Lélio Ravagnani, que, ao contrário do primeiro, não se opunha à carreira da mulher. Ficaram juntos até a morte dele, em 2000. Após a Record, foi para a Band, no final dos anos 70, onde ficou por quatro anos. Em 1985, Silvio Santos a chamou para ser a estrela do SBT. Hebe está na emissora há 23 anos _e renovou contrato recentemente por mais quatro anos.

“A TV é minha vida. A partir dela, comecei a aparecer, e o Brasil começou a me prestigiar. Se o público não quiser, nada acontece. Sou grata a ele.” A loira diz ainda se surpreender com as manifestações. “Vejo rapazinhos de 15 e 16 anos me pedindo um selinho. Mas não me sinto um mito.”

Flagra no banheiro

Mas o fato é que Hebe tem a admiração de artistas do primeiro time. O colega de emissora Gugu Liberato tenta defini-la: “É uma pessoa especial, com uma carreira impecável. É o tipo de pessoa que trabalha por amor, daí vem seu brilho, sua luz!”.

Gugu conta um episódio que mostra a irreverência de Hebe. “Estava hospedado em um hotel de Salvador. Ela também estava, mas não sabia. Ela fez então uma surpresa, entrando em meu apartamento. Só que eu estava tomando banho! E ela, com seu bom humor de sempre, entrou no banheiro fazendo a maior festa, sem se importar com a situação na qual me encontrou. Foi muito divertido”, diz.

A apresentadora da Globo Ana Maria Braga ficou amiga de Hebe quando as duas frequentavam o mesmo salão. “Durante anos, nos víamos semanalmente, no antigo Colonial. Dávamos sempre boas risadas. Hebe é uma companhia inigualável”, afirma. Para Ana Maria, a “exuberância e a alegria de viver” são marcas registradas de Hebe.

A turma da música também vê Hebe com carinho. Irreverente, Alexandre Pires deseja a ela “muito sexo, amor e paixão” nestes 80 anos. Beth Carvalho lembra a primeira ida ao programa. “Foi no começo dos anos 70. Fiquei impressionada com a forma direta de comunicação com o público.” Margareth Menezes também se lembra da primeira vez: “Fui cantar ‘Elegibô’. Estava com medo. Era uma nordestina de Salvador chegando a São Paulo. Hebe me recebeu com toda a simpatia”. Beth tem uma teoria sobre a longevidade de Hebe em frente às câmeras. “É porque ela não envelheceu.”

Roqueira tatuada

Quem convive com Hebe é certeiro ao responder que atrasos a irritam. É o que dizem Ariel Jacobowitz, diretor do programa “Hebe” há seis meses, e Regina de Souza, produtora-executiva da atração há mais de 20 anos. Regina lembra um episódio engraçado. “Ela se vestiu de roqueira, toda de couro, com uma peruca enorme encaracolada e uma tatuagem de cobra na barriga. Ela entrou no palco com uma guitarra e a jogou para a plateia. Na hora, todo mundo se assustou, mas depois rimos muito.” Ariel define Hebe como uma “profissional de primeira”. “É pontual e gosta de tudo muito organizado. Quero chegar à idade dela assim. É de dar inveja.”

Para quem ainda se admira com as “travessuras” de Hebe, que hoje é conhecida por seus selinhos, a apresentadora surpreende também em seus 80 anos. Ela poderia dar uma volta ao mundo, mas escolheu um parque de diversões para brindar com os amigos seus 80 anos.

Depois da festa de arromba desta noite, Hebe planeja uma comemoração menos formal. No dia 17, embarca com um grupo de amigos para a Disneylândia (EUA). “Muita gente caçoou de eu fazer minha festa na Disney. Mas não é uma festa de criancinha. É uma festa de adulto, para a gente se sentir criança. Porque na Disney, em qualquer canto, você se sente criança. Quer coisa melhor do que você ter 80 anos e poder se sentir criança?”. Realmente, em matéria de vitalidade, Hebe é imbatível.

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O grande exemplo para Galisteu

Apontada como provável sucessora de Hebe, Adriane Galisteu se inspira na apresentadora. “A Hebe é sem dúvida uma inspiração para mim como profissional. Ela é essa fonte eterna de alegria, vida, prazer e emoção”, afirma. Adriane, que diz colecionar histórias com Hebe, conta uma delas. “Foi no aniversário dela de dois anos atrás, que passamos só eu, ela e nossas famílias. Foi um momento de grande intimidade.”

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Com Lolita, apresentadora construiu amizade de 65 anos

Aos 15 anos, Hebe conheceu uma jovem da sua idade, que tinha sonhos parecidos com os seus: Lolita Rodrigues, que faz 80 anos depois de amanhã. “A Lolita sempre se gabou de ser dois dias mais nova que eu [risos]”, lembra Hebe.

Foi Lolita quem cantou no lugar de Hebe o “Hino da Televisão”, na chegada da TV ao país. “São 65 anos de amizade. Quando nos conhecemos, cantava na Cultura, e ela, na Tupi. Ficamos tão grudadas que, quando o seu Fego [pai de Hebe] estava para morrer, ele me disse que eu era a sétima filha dele”, conta Lolita.

Em 1950, a dupla se transformou em trio, com a companhia da atriz Nair Bello, que morreu em 2007. “Não podíamos ir juntas a velório, porque sempre acontecia alguma coisa e a gente caía na risada”, recorda Lolita, às gargalhadas. Ela lembra que salvou a vida de Hebe. “Fomos para Recife. De repente, olho para o mar e cadê a Hebe? Fui correndo tirá-la de lá. Foi um susto!”

Para Lolita, das três, Hebe sempre foi a mais espevitada. “É um caso raro, merece ser estudada por cientistas. Me dá vontade de dar um murro nela. Sabe como a Nair chamava a Hebe de brincadeira? De velhinha filha da puta.”

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"Hebe é uma pessoa especial, com uma carreira impecável e um caráter raro. É o tipo de pessoa que trabalha por amor, daí vem seu brilho, sua luz"
Gugu Liberato, apresentador


"Hebe conquistou o título de maior apresentadora da TV brasileira por ser uma mulher sempre à frente do seu tempo. Ela não poupa elogios e críticas a ninguém"
Ana Maria Braga, apresentadora



"Passei as dificuldades pelas quais todo mundo passa. Precisava limpar a cozinha da minha tia para ganhar dinheiro para o bonde"
Hebe Camargo, apresentadora


"Muita gente caçoou da minha festa na Disney. Lá, você se sente criança. Quer coisa melhor do que você ter 80 anos e poder ainda se sentir criança?"
Hebe Camargo, apresentadora




Reportagem de capa da Revista da Hora do jornal Agora São Paulo de domingo, 8 de março de 2009. Fotos de Lourival Ribeiro/SBT/Divulgação

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Coluna do Miguel Arcanjo nº 153

Notas carnavalescas

Por Miguel Arcanjo Prado*

O Carnaval se foi, deixando cores, gostos, cheiros e sons ainda impregnados. Aventurei-me por duas festas. Primeiro a do Anhembi, no desfile das escolas paulistanas, na sexta e sábado. Depois, me piquei para Salvador da Bahia, mundo dos blocos e afoxés, onde fiquei até a triste Quarta-Feira de Cinzas --não para os baianos, é claro. Então, vamos às notas carnavalescas.



Rainhas
No sambódromo do Anhembi, preocupação dos fotógrafos a postos tem nome: a rainha da bateria. Nada mais importa: alas, baianas, carros. As rainhas e seus corpos fenomenais são fundamentais. Meu amigo João Batista Jr., repórter da Vejinha, definiu bem o porquê disso: o Carnaval consegue deixar essas moças ainda mais bonitas e exuberantes. E, ao vê-las de perto, constatei o óbvio: não é que é mesmo?



Ovos
Ao chegar no Anhembi, Adriana Bombom logo exibiu seu corpo de cair o queixo. E deu a explicação de sempre: "Comi 70 ovos em dois dias". Haja estômago.

Bunda não pode
A irmã e assessora de Sabrina Sato sofreu na concentração para proteger o bumbum da apresentadora do "Pânico". É que os rapazes da Gaviões usavam os celulares para tirar foto da comissão de trás da moça. Pode?

Sonho de Carla
No camarote Contigo Daniela Mercury, no circuito Barra-Ondina, em Salvador, Carla Perez era só simpatia. Ria à beça e tirava fotos com quem fosse. A moça cobriu a festa baiana para a Rede TV! e até se saiu bem, ao contrário da apresentadora da emissora Daniela Albuquerque --mulher do dono-- que mostrou ser a pior apresentadora do Brasil. Carla me contou que quer montar uma peça infantil. Viu "O Poeta e as Andorinhas", produzida por Cintia Abravanel --a filha nº 1 de Silvio Santos-- e falou: "Quero fazer uma igual". Para quem já está com a língua a postos para falar mal dela, Carlinha avisa. "Sou atriz formada". E é mesmo. Ela fez a Oficina de Atores Nilton Travesso.



Aposentadoria
Já Gilberto Gil me disse, na entrada do camarote Expresso 2222, capitaneado por sua mulher, Flora, e por sua filha Preta, que não quer saber mais de trio elétrico. "Já estou velho", falou. Respondi de pronto. "Tá velho nada, Gil". Ele: "Tô, sim. Não aguento mais, prefiro ficar mais calminho". Este ano Gil desfilou no bloco de afoxé Filhos de Gandhy, que completou 60 anos. Ele ainda estava vestido com a vestimenta azul e branca, quando conversamos, no começo da noite de domingo de Carnaval. “É muito bom curtir assim, mais relaxado, mais tranquilo. Comecei a fazer trio velho, com 55 anos, por ideia da minha mulher, a Flora. Fiz dez anos, mas quis parar neste ano, porque já estou velho para trio. Você já viu como é? É uma coisa doida, você fica cantando oito horas lá em cima”, disse o cantor, abrindo o sorrisão. Morador do Rio, Gil fez questão ainda de declarar o amor à Bahia. “No Caranaval, é hora de voltar à casa, ao dendê, ao pôr-do-sol no Porto da Bara”, disse, antes de beijar Flora na boca

Semideus
Com o abadá azul e branco dos Filhos de Gandhy, o ator Alexandre Barilari andava todo prosa por Salvador. “Estou me sentindo um semideus”. Modesto, não?

Revolta
Dilma Roussef, a ministra-candidata, não foi a Salvador no Carnaval e comprou a mágoa do prefeito, João Henrique (PMDB), e no governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). Ao trombar com João Henrique no domingo, ele me confidenciou estar ainda esperançoso da visita. “Ela foi ao Recife, queríamos ela aqui também”, disse. Ele já até planejava pedir ajuda da candidata de Lula para a conclusão das obras do metrô soteropolitano. "Só faltam 3% da verba", afirmou.

Matriarca
A promoter Licia Fábio, dona de meia Bahia e responsável pelo camarote Contigo Daniela Mercury, foi uma das figuras mais reverenciadas no Carnaval. Cada trio que passou pelo espaço parou para seu cantor pedir sua bênção. Sentada em um sofá branco, posicionado debaixo de um ventilador, Licia tinha aos pés o publicitário Nizan Guanaes --responsável pela conta do Carnaval de Salvador--, a quem fazia cafuné na cabeça.



Atrevida
Vestida de deusa africana --ou a tal guerreira do axé, como se definiu--, Ivete Sangalo berrou, do alto do trio, no Campo Grande, ao ver o prefeito de Salvador, João Henrique (PMDB), na terça de Carnaval: “Eu gosto de você todo suado”. O político ficou sem graça. Ela não se deu por satisfeita e não poupou a primeira dama soteropolitana, Maria Luiza Barradas. “Jogou luzes no cabelo, foi? É por isso que o prefeito está de laranja, para combinar”, finalizou, animadíssima.



Cadê?
Na segunda de Carnaval, Daniela Mercury --chamada por Ivete e Claudia Leitte de eterna rainha da festa baiana-- homenageou a tropicália, em seu trio apinhado de bailarinos e com participação de Paula Lima --um tanto quanto apagadinha. Em frente ao camarote Expresso 2222, ela chamou por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Ao ver que nenhum deles aparecia na sacada, se decepcionou. “Eu liguei o dia inteiro para eles falando que faria essa homenagem”, disparou, revoltada, antes de tocar “Tropicália”, o hino-manifesto composto por Caetano. Quando a música já havia terminado, eis que Gilberto Gil surge na sacada e, humilde que só, pede desculpas pela ausência no momento fatídico. Daniela implora para que a prefeitura a deixe ficar com o trio parado por mais um tempo --os trios precisam seguir um cronograma de desfile, senão são multados--, para poder fazer dueto com o ex-ministro. Atendida, cantou com ele “Vamos Fugir”. Gil se empolgou e emendou “Madalena”. Daniela deu-se por satisfeita e deixou o trio seguir em frente.



Grito do trio
Claudia Leitte foi a responsável pelo momento feliz no Carnaval baiano. Estava eu lá na varanda do Expresso 2222, o camarote do Gil, quando ela passou com seu trio conduzindo o Bloco da Barra. Ao me ver no meio do povo, gritou: "Miguel, meu Arcanjo lindo! Te amo, viu?". Na hora, fiquei lisongeado e o coração bateu mais forte. E olha que não sou dado a esse tipo de emoção. Mas quem já ouviu algo assim de uma cantora no alto de um trio vai entender que não sou piegas. Claro que respondi de pronto: "Eu também, Claudinha".


*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e precisa dormir urgentemente.


Fotos: Iwi Onodoera, Alessandra Gerzoschkowitz, Eduardo Freire e Sandra Lopes/Ego/Globo.com

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Coluna do Miguel Arcanjo nº 152


O Carnaval já vem chegando

Por Miguel Arcanjo Prado*

Da janela do apartamento no alto do 19º andar da avenida São João escuto o som de festa que vem do largo do Arouche, no centro de São Paulo. Uma semana antes, as pessoas já se jogam na folia sem culpa alguma e me fazem sentir saudades dos blocos nas ruas da zona sul do Rio. Festa mais tradicional de nosso povo, o Carnaval traz consigo sensações de liberdade e de felicidade únicas.

Mês passado, acompanhei o ensaio técnico da Mangueira, minha escola do coração, na Marquês de Sapucaí, no Rio. Arquibancadas lotadas e cervejas em punho, os mangueirenses estampavam na avenida um gozo coletivo ao entoar o samba-enredo com todo fôlego possível. Passistas, ritmistas e baianas fizaram um ensaio impecável, já cheio daquela emoção de descer o morro para brilhar na avenida.

Em São Paulo, os preparativos também seguem de vento em popa. Ensaios nas quadras são cada vez mais disputados, cheios daquela gente de sambar desengonçado mas, nem por isso, menos feliz.

Mas tudo termina na Bahia, que monopolizou nos últimos anos a festa profana. Em Salvador, Carnaval é levado a sério, como em poucos lugares do mundo. Lá se pula que nem pipoca por todos os dias possíveis de fevereiro (e - por que não? - do ano), mas também se pensa na festa como o espaço de ganhar dinheiro e promover até a exaustão completa a música que faz a vida de tantos baianos e a alegria de gente endinheirada do Sudeste e até de outras partes do mundo.

Apesar do viés econômico, o bom mesmo no Carnaval é, como diz a letra da música cantada pela nova musa Claudia Leitte, beijar na boca e ser feliz daqui para frente. Afinal, o ano só começa depois da Quarta-Feira de Cinzas.


*Miguel Arcanjo Prado é jornalista, frequentou ensaio de blocos e de escolas de samba no Rio, mas vai cobrir os desfiles das escolas de São Paulo e dos trios elétricos em Salvador.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mais uma Dose


Mais uma dose
É! claro que eu to afim
A noite nunca tem fim
Porque que a gente é assim?
Agora fica comigo
e vê se num degruda de mim
Vê se ao menos me engole
mas não me mastiga assim
Canibais de nós mesmos
antes que a terra nos coma
cem gramas, sem drama
porque é que a gente é assim?

Mais uma dose
É! claro que eu to afim
a noite nunca tem fim
baby, porque que a gente é assim?

Você tem exatamente três mil horas
Pra parar de me beijar
hum!!! Meu bem, você tem tudo
Pra me conquistar
Você tem exatamente um segundo
Pra aprender a me amar
Você tem a vida inteira
Pra me devorar
Pra me devorar

Você tem exatamente três mil horas
Pra parar de me beijar
hum!!! Meu bem, você tem tudo
Pra me conquistar
Você tem exatamente um segundo
Pra aprender a me amar
Ah! Cê tem a vida inteira, baby
Pra me devorar
Pra me devorar

Mais uma dose
É! claro que eu to afim
A noite nunca tem fim
Porque que a gente é assim?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Domingo de ensaio na Marquês Sapucaí

A noite de domingo (25) surge quente no Rio. O povo ruma à Marquês de Sapucaí. Chego pouco antes de a Mangueira entrar na avenida. A escola dedica o ensaio à Tia Doca, da Portela, morta horas antes, de infarto. Alcione faz as vezes de anfitriã, junto com Rosemary. A Marrom conta que a escola vem homenageando Jamelão, morto no ano passado. "Ele é a voz do samba, que é a voz da Mangueira", ela me diz. Luizito também presta reverência. "Jamelão sempre estará com a Mangueira", fala.

Mas os flashes são todos para Gracyanne Barbosa, a exuberante rainha da bateria da agremiação que homenageia o povo brasileiro. Educada, fala comigo: "Ainda tenho muito aprender". E mostra porque conquistou o posto: "Não falto em ensaio por nada".

E a escola entra bonita na Sapucái, arrepia e emociona. Muitos choram e se arrepiam.



Gracyanne Barbosa samba em frente à bateria da Mangueira


Depois vem a Viradouro. Perfeitamente coreografada. A bateria, que traz atabaques como charme, reverencia a arquibancada 1. O povo vai ao delírio. A escola surge mais jovem e inovadora e mostra que está na disputa, com seu enredo sobre a Bahia. Atraindo os olhares dos fotógrafos, duas beldades, cheias de estripulias além do samba.



Nana Gouvêa se joga na avenida




As generosas formas de Juliane Almeida, rainha da bateria da Viradouro


Leia também outra visão do fim de semana carioca, por Gabi.

Fotos: Isac Luz/Globo.com

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A China da Sônia


Terminei de ler recentemente "Laowai - Histórias de Uma Repórter Brasileira na China", escrito por Sônia Bridi com fotos do Paulo Zero. A obra é simplesmente excelente. Editada com maestria pela editora Letras Brasileiras, de Santa Catarina --terra de Sônia--, o livro é envolvente, informativo e bem-humorado.

Ele prova que bons repórteres de TV são bons autores de texto em qualquer formato. As fotos do Paulo também são belíssimas. Dá gosto de ler. Recomendo a quem quiser se divertir e ainda ficar por dentro desse mundo tão misterioso chamado China.

Quando Sônia e Paulo estiveram no Brasil, para lançar a obra, em julho do ano passado, conversei com os dois, na lanchonete da Globo, em uma divertida entrevista. Se ficou com vontade de saber mais sobre o livro e sobre eles, é só clicar aqui.

Ah, não posso deixar de dar uma de convencido e contar que meu exemplar do livro tem o seguinte autógrafo: "Miguel Arcanjo, carregue com responsabilidade esse nome! Espero que goste dessas aventuras. Beijo. Sônia Bridi e Paulo Zero."

Bom, não só gostei como recomendo. Corra para a livraria!

Na foto do meu colega Lourival Ribeiro: Paulo Zero, Sônia Bridi, Pedrinho e Mariana, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, no lançamento do livro.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Lembranças de uma noite de verão

Um dia eu alcanço os seus passos e a gente vai andar...

Um dia eu alcanço a estrada e a gente vai voar...

Vejo o sol...

Ligo o som...

Desligo o som...

O Blog do Átila


Meu amigo e parceiro jornalista Átila Moreno --nesta foto, na janela do meu apartamento, na avenida São João, em Sampa-- tem um blog que é um dos que leio com frequência. Gosto tanto do que vejo lá que resolvi colaborar. Atrevido, ofereci-me a fazer um texto, que achava que cabia no espaço. E não é que meu parceiro barbudo topou e me deu a honra de assinar um texto em seu blog? Se você ficou curioso, clique aqui e confira!
Aquele abraço!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Coluna do Miguel Arcanjo nº 151


A ida ao Zoológico

Por Miguel Arcanjo Prado*


Queria falar sobre o descaso da polícia paulista com os assassinatos no parque de Carapicuíba, mas acabei, neste exato momento, de mudar o tema desta coluna. Vendo as fotos do recente passeio que meu primo baiano Danilo Ribeiro fez ao Zoológico de São Paulo, dei-me conta de como os passeios ao Zôo de Belo Horizonte eram o que havia de mais feliz na minha pobre, mas rica infância.

Eles aconteciam anualmente, sempre no feriado de 12 de outubro, o esperado Dia das Crianças. Como não havia muita grana para presente, o presente acabava sendo o passeio organizado com afinco por minha mãe, Nina, em parceria com algumas amigas do bairro. Reunia-se o maior número de crianças possível e lá íamos todos, de ônibus mesmo, para o Zoológico na Pampulha. A viagem demorava. Era preciso pegar duas conduções. Uma deles demorava muito a passar e aproveitávamos para chupar laranja no ponto de ônibus da avenida Portugal.

Não sei como minha mãe tinha coragem para despejar aquela quantidade de crianças inconseqüentes no Zôo. Lembro-me que, em um desses passeios, o Abraão, menino peralta e metido a velente, pulou dentro da jaula do hipopótamo. Graças da Deus o bicho estava entediado e não quis lhe fazer mal algum.

O que eu adorava mesmo era ver a família de elefantes: Joca, o pai, Beré, a mãe, Axé, a filhinha, e Chocolate, o caçula. Gostávamos de dar comida escondido aos bichos, o que deixava, com razão, o tratador de cabelo em pé.

O gorila Idi-Amim, cujo nome homenageia o ditador de Uganda, era o mais solitário e triste dos bichos. Mamãe sempre contava que o Zôo estava tentando conseguir uma namorada para ele com zoológicos de outros países. Morríamos de pena e torcíamos para um final feliz para ele.

A hora do lanche era a melhor de todas. Íamos para as proximidades do parquinho de madeira, onde brincávamos por horas intermináveis. Mamãe levava suco de pacotinho sabor guaraná em uma garrafa térmica de cinco litros. Ele conseguia ficar geladinho, mesmo debaixo do sol que sempre fazia. Para comer, pão com mortadela Sadia sentados no lençol estendido na grama. Era o lanche mais delicioso do ano. Simples assim.

Comíamos pão até dizer chega e depois íamos para a parte mais temida do passeio: ver as cobras. Arrepiados, ficávamos hipnotizados diante delas. Bastava um movimentozinho bobo, saímos gritando, amedrontados.

O passeio era completo com o leão, o tigre e o leopardo, que nunca ligavam para nós, os macacos, que adoravam fazer graça, e a majestosa praça das aves, onde fazíamos graça para o pavão abrir a cauda. Depois de rir do pescoço da girafa, assustar com a boca do jacaré e pular dentro da jaula dos jabutis, íamos para a casa no fim do dia, com o sol se pondo. Cansados, suados e felizes. Na volta, antes de dormirmos no embalar do ônibus, fazíamos planos para a visita do próximo ano, tão certa como costuma ser a fé de uma criança.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e foi uma criança feliz.

PS. Infelizmente, o elefante Joca morreu em 3 de outubro de 1995, vítima de uma infecção no aparelho digestivo, após comer uma garrafa pet jogada na jaula, o que nos deixou imensamente tristes (hoje o esqueleto dele faz parte do acervo do Museu de Ciências Naturais da Puc Minas, em Belo Horizonte). Já o gorila Idi Amin completou 35 anos e continua sem namorada.

domingo, 9 de novembro de 2008

Coluna do Miguel Arcanjo nº150


Ode a Obama

Por Miguel Arcanjo Prado*

Vovó Oneida escutava os discos de Gil no volume máximo. E eu pulava, criança. "Realce" era a minha favorita, a dela, "Super-Homem, a Canção". Vovó, que era da idade de Gil, era feliz por seu neguinho, como ela o chamava de forma carinhosa, existir. Não perdia um show dele, fosse no Palácio das Artes ou no Canecão.

Protagonista em Minas do nascimento social do negro brasileiro, nos anos 70, nos quais o Black-Power ditava a moda nas discotecas recém-inventadas, vovó via com devoção o Ilê Ayê, bloco negro surgido na ladeira do Curuzu, na Liberdade, bairro negro e proletário soteropolitano.

Após um congresso afro de candomblé na Bahia, que ajudou a realizar ao lado de Pierre Verger, Carybé e Jorge Amado, vovó resolveu que fundaria o primeiro bloco afro de Belo Horizonte, o Afoxé Ilê Odara, que surgiu no começo dos anos 80 em desfile pela avenida Afonso Pena, tendo Gil de padrinho e grande incentivador.

Passei os primeiros anos de minha existência desfilando com o Afoxé a cada Carnaval, orgulhoso do sorriso negro que esbanjávamos. Assim foi até a morte de Oneida Maria da Silva Oliveira, a mãe Gigi, em 1988, quando um vazio encerrou aquele último Carnaval, com meu pai puxando melancolicamente o bloco ao som de "Mãe, mãe, mãe, vou sair de Ilê", composta por ele.

Quando, na última semana, vi Obama presidente, a primeira coisa que pensei foi em vovó. Até porque, no sábado anterior, havia estado no novo show do Gil, "Banda Larga Cordel", e pulei quando ele cantou "Realce". Nos dois momentos, tive a certeza que ela ficaria orgulhosa.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e negro.



Um triste Ps.
Serão leiloadas 578 obras de artes que pertenceram ao casal Jorge Amado e Zélia Gattai. Os filhos dos escritores, Paloma e João Jorge, venderão tudo em um leilão na Soraia Cals, no Rio, entre 18 e 21 de novembro. As obras, que conheci espalhadas pela Casa do Rio Vermelho, quando ainda havia vida alegre por lá, ficarão expostas a partir do dia 12. A venda contraria o desejo de Zélia, minha madrinha querida, que manifestou várias vezes a vontade que as obras integrassem o Memorial da Casa do Rio Vermelho, em Salvador. O projeto nunca saiu do papel e agora foi abortado. Os objetos que contam a vida e as importantes amizades do casal mais importante da literatura brasileira se transformarão em dinheiro. Uma grande pena. Ainda bem que Jorge e Zélia não estão mais aqui para ver tudo isso se perder.


Jorge Amado, João Jorge, Zélia Gattai e Paloma Jorge Amado: os filhos vão vender 578 obras colecionadas pelos pais

sábado, 18 de outubro de 2008

Coluna do Miguel Arcanjo nº 149

Silvana & Roberto

Por Miguel Arcanjo Prado*

Todo mundo sabe que São Paulo não pára. São festas, peças, restaurantes, bares, baladas e tudo quanto é coisa para todos os gostos, bolsos e tipos. Assim sendo, cobrir gente e cultura nesta cidade, coisa que faço há cerca de um ano e meio, é um verdadeiro frenesi. Um batalhão de profissionais faz a cidade acontecer e, no meio de tanta gente, dois nomes são especiais.

A primeira é Silvana Garzaro, que adora gargalhar, mas que quando pisam no calo dela roda a baiana e deixa aflorar toda a quentura do sangue italiano que corre nas veias. Fotógrafa das boas, é capaz de um tudo para ter o clique que deseja e que estampa algumas das principais revistas do país.

Sem qualquer tipo de deslumbre com estrelas, Silvana é capaz de mandar o ator ou atriz do momento ir catar coquinhos, se ele merecer, é claro – coisa que aprendi sem culpa alguma.

Do tipo transparente, deixá-la feliz é ir vê-la tocando em festas e boates badaladas da cidade, já que também arrisca de DJ nas horas vagas e, entre outras coisas, adora ver clássicos de Hollywood, com uma leve preferência para filmes com Bette Davis.

Atrevida a todo instante, Silvana foi responsável por um momento histórico da MPB: sabedora das coisas, certa vez, em Portugal, teve a idéia de apresentar as cantoras Ângela Maria e Maria Rita. Foi graças a Silvana, que a filha de Elis Regina conheceu a mulher de quem sua mãe foi fã. Se quiser a história com mais detalhes, basta perguntar para a própria Silvana, que não tem modéstia alguma em contá-la. Faz muito bem.

O segundo é Roberto Rodrigues, ou Beto para os mais íntimos, o mais novo homem das festas paulistanas. Depois de muito tempo cuidando da publicidade do Grupo Folha e, logo depois, assessorar celebridades de primeiro time em um escritório tarimbado, resolveu alçar seu vôo solo.

Homem experiente e tarimbado no perigoso mundo do glamour, para este paulista de Presidente Prudente não há tempo ruim. Tudo o Roberto resolve. Coisa rara no meio, é do tipo que trata bem não só a celebridade, mas também a imprensa, os garçons, o porteiro e por aí vai.

Dá um alô para todo mundo, cumpre o prometido, está disponível sempre. Atento, solícito. É por isso que não duvido que esse nome ainda vai soar muito por aí. Roberto Rodrigues é só carisma e acho que a melhor imagem para defini-lo é um largo sorriso no rosto, que me lembra a gargalhada de Silvana Garzaro.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e não é muito de sair à noite, a não ser quando Silvana ou Roberto convocam.

PS. Abaixo, este vosso colunista em foto recente de Silvana Garzaro: