domingo, 5 de junho de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 177

Quem é Ancelmo Gois?

Por Miguel Arcanjo Prado*


Para o colega Fabian Chacur

Vira e mexe me assusto com os novos tempos. E olha que eu só tenho 29 anos e ainda não deveria estar desse jeito. Mas não dá.

Ao mesmo tempo em que muitos bradam por aí que estamos na era mais avançada da comunicação e que a humanidade evoluiu não sei quantas léguas, vejo, por outro lado, uma marcha em prol de tornar o mundo cada dia mais careta.

Parece que muita gente não ficou feliz diante dos passos largos que demos nas últimas décadas, sobretudo nos costumes. É por essas e outras que vemos surgir histórias absurdas como a que catapultou Geisy Arruda ao estrelato.

Por exemplo, na aprovação da união estável para casais gays pela Justiça houve de tudo. Até o retrógrado deputado, cujo nome eu me recuso a citar para não ajudá-lo depois nas urnas, que disse que a medida ajudaria a aumentar a pedofilia. Tadinho, será que ninguém avisou para ele que, geralmente, pedófilos são os pais, irmãos, tios e padrastos de famílias oficialmente dentro do “formato cristão” que ele defende? É cada asneira que se ouve – e se publica – impunemente por aí...

A Avenida Paulista, ultimamente, está vivendo, a cada semana, seu momento maio de 1968. Um dia é marcha para defender a maconha, noutro, mulheres saem com cartazes em prol do direito de serem vadias e, ao fim, como não cansa de reclamar minha amiga fotógrafa Julia Chequer, a imprensa apanha da PM qualquer que seja o tema da marcha. Dia desses é bem capaz de um grupo de senhorinhas quatrocentonas saírem por aí para defender Deus, a família e a liberdade, igualzinho aquela de mais de 40 anos atrás.

Porque o direito de não ter metrô perto de casa elas já defenderam. Afinal de contas, conviver com “gente diferenciada” é tarefa complicadíssima. Eu que o diga. Afinal, faço isso desde que nasci.

PS.
Fala que não dá vontade de chorar quando você escuta, em uma redação, a inconsequente pergunta de estagiário do terceiro ano de jornalismo, em plena era Google: “Quem é Ancelmo Gois?”.

*Miguel Arcanjo Prado é um dos jornalista que ainda gosta de ler jornal.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 176

Adeus, Zé

Por Miguel Arcanjo Prado*




José Alencar se foi. Parece difícil de acreditar. Mesmo diante de sua doença – o que poderia fazer alguns pensarem que seu fim era algo iminente –, seu recado sempre foi de vida. De dignidade.

Zé, como era chamado pelos amigos e pelo povo de Minas Gerais, terra que amou como poucos e foi espécie de porta-bandeira, com seu jeito amigo, hospitaleiro e conciliador, demonstrava uma fé inabalável a cada entrada ou saída do hospital.

Em meus primeiros passos no jornalismo, ainda estudante da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e estagiário de uma grande redação em Belo Horizonte em 2005, fui surpreendido pelo recado de meu editor, Paulo Valladares. Seria uma espécie de setorista de José Alencar.

Na realidade, isso significava que era de minha responsabilidade cobrir, diariamente, a agenda do vice-presidente e, claro, as novidades de seu estado de saúde, já então delicado.

Passei a falar diariamente com seu fiel assessor, Adriano Silva, que me passava as últimas do Zé. Até que um dia ele apareceu na emissora para uma entrevista. Encontrei-me com ele no corredor e contei que cobria sua agenda. Daquele jeito simples, ele me agradeceu e, quebrando todos os protocolos de um vice-presidente, me deu um abraço afetuoso.

É esta imagem que vou guardar do meu conterrâneo José Alencar. Homem que soube, como poucos, mostrar que é possível fazer política com dignidade. Sua vida foi exemplo de vitória, com a surpreendente trajetória de menino pobre de Muriaé, na zona da mata mineira, a empresário milionário e vice-presidente da nação.

Sem preconceitos, uniu-se ao candidato ex-operário, dando a ele a confiança do mercado da qual tanto necessitava. Zé foi generoso, humilde e sempre respeitoso com o presidente Lula, sem perder suas opiniões e convicções. Quem não se lembra de sua batalha contra os juros altos? Mas suas considerações eram feitas de forma a nunca faltar com o respeito.

Zé conquistou o amor do povo brasileiro ao mostrar, diariamente, que era apenas mais um deles. Homem simples, guerreiro, batalhador. Coisa rara de se ver. É por isso que sua partida dói tanto.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e tinha um grande carinho por seu conterrâneo José Alencar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 175



Papai Noel e uma ceia de Natal

Por Miguel Arcanjo Prado*


Foi Márcia La Marca, produtora da TV Globo Minas, quem me apresentou ao Papai Noel dos Correios. Marcinha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, sempre fazia questão de buscar as cartinhas escritas por crianças pobres endereçadas ao Papai Noel. Depois, levava o pacote à redação, onde distribuía uma a cada um dos jornalistas, incluindo aí os estagiários, categoria à qual eu pertencia nos Natais de 2005 e 2006.

Marcinha me ensinou a alegria imensa que é ir às lojas de brinquedos ou papelarias buscar presentes dos mais simples pedidos por aquelas letrinhas infantis cheias de fé e de esperança, mesmo diante de uma vida tão adversa.

Quatro anos já sem Marcinha no meu cotidiano, há duas semanas, fui postar alguns cartões de Natal na agência dos Correios da minha rua. E qual não foi minha surpresa ao ver, enorme, uma caixa de papelão cheia de cartinhas. Atrás da caixa, uma funcionária com aquele sorrisão igual ao da Marcinha, pedindo:

- Por que você não leva uma? A campanha só vai até depois de amanhã. E ainda tem muita cartinha aí perdida, sem ser adotada...

Logo quando entrei na agência, eu me encontrei com a faxineira do meu prédio, que estava saindo. Esperta, a atendente dos Correios notou nossos cumprimentos e a pergunta de Marlene se eu não queria que ela fosse lá em casa deixar o apartamento um brinco para o Natal. Tanto que mandou essa:

- Por que você não adota a cartinha do filho de sua funcionária? Ela colocou já faz alguns dias mas ninguém levou ainda... Ela vem aqui todo dia ver se alguém pegou e, hoje, terminou de sair tristinha, porque percebeu que a cartinha do filho dela ainda está aqui.

Mal disse essas palavras, enfiou a mão na caixa, retirando o trunfo:

- É esta aqui!

Na hora me veio à cabeça o sorriso de Marcinha. Não tive como não levar esta e mais outras três cartas, que dividi com meu primo Caio Silva e minha amiga Gabriela Quintela. Só sei que saí dos Correios me sentindo o ganhador do maior presente do mundo.

******

Noite de véspera de Natal e lá estava eu na redação do R7. Trabalhando sem parar. Com a família e o amor a algumas centenas de quilômetros de distância, não havia perspectiva de ceia ou de confraternização.

Até que o elétrico repórter Fernando Gazzaneo veio com o convite de última hora:

- Miguelito, terminei de falar com o João Varella [gaúcho e também repórter dos bons do R7]. Ele falou que a mãe dele veio de Guaíba visitá-lo, fez uma ceia enorme e está chamando dóis para ir à sua casa assim que sairmos daqui. Vamos?

Simples assim. Logo que deu nosso horário de saída, às 23h, rumamos às pressas para a rua Eduardo Prado, nos Campos Elíseos, onde fica o apartamento do João, com medo de não chegarmos a tempo da meia-noite. Mas deu tudo certo.

Conhecemos Patrícia Varella, parecida mais uma irmã do que mãe do João. Professora de educação física e dançarina de mão cheia. Uma gaúcha da pá virada que foi várias vezes na fila na qual Deus distribuiu o carisma. Feliz, sorridente, simples e acolhedora. Fez-me sentir em casa, ao lado de Fernando, dela e de seu dois filhos, João e Gibran - este vindo de Curitiba também para o Natal.

Foi assim que descobri, mais uma vez, que a beleza do Natal é feita de gestos simples e inesquecíveis.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e deseja a todos um 2011 cheio de saúde, paz e Deus no coração.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 174

A alegria americana e a tristeza carioca

Por Miguel Arcanjo Prado*




Depois de quase dez anos afastado da elite do futebol nacional, o América Mineiro conquistou o direito de voltar à série A do Campeonato Brasileiro, no último sábado (27), ao empatar com o Ponte Preta. Fiquei contentíssimo.

Não, caro leitor. Não sou americano. Sou galo, torcedor do Atlético-MG, estado esportivo que também define todos os outros membros da minha família quando o assunto é bola no campo. Mas, como bom atleticano, na mesma medida em que
odeio o Cruzeiro, tenho aquele carinho especial pelo Coelho.

Quando se fala em América, a imagem que vem em minha mente é a do Tio Jaci, típico torcedor americano, morador do tradicional bairro do Esplanada, na zona leste belo-horizontina, nos arredores do estádio do Independência, a casa de seu time.

Sempre com seu radinho a pilha por perto, Tio Jaci acompanha cada centímetro da trajetória de sua equipe desde que me entendo por gente.

Nas férias da infância e adolescência, que adorava passar em sua casa, com Tia Rose e os primos Mateus e Moisés, o América Mineiro sempre era a pauta das conversas com ele. Tio Jaci sabia tudo. As contratações, as broncas do técnico na equipe, a
escalação para o próximo jogo. Eu, apesar de não ser muito afoito em temas futebolísticos, sempre dava trela,encantado com o encanto que aquele time provocava nele.

Tenho certeza que hoje, com o América-MG na elite do futebol nacional, Tio Jaci está lá na casa dele todo orgulhoso e feliz.

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O horror que se viu nos últimos dias no Rio entristece,choca, comove, provoca, desespera. Desespera porque é difícil ver luz no fim do túnel desta cidade com bandidos cruéis encastelados não só nos altos dos morros como também nos altos gabinetes do Estado.

Apesar da euforia provocada por tanques de guerra que deixaram traficantes acuados, ainda é difícil vislumbrar jeito para o Rio. Porque sempre haverá consumidores de drogas. E gente que lucrará com a venda ilegal dela à população.

É por demais utópico dizer que o consumo deveria acabar como estratégia de minar a força do tráfico, tirando dele o dinheiro dos playboyzinhos e patricinhas da zona sul e suas festinhas por lá e na Lapa.

A verdade é que as coisas não são tão simples assim. É por isso que, mesmo com o Alemão caído, a gente ainda fica com medo e se desespera.

*Miguel Arcanjo Prado é um jornalista mineiro de jeito carioca.

sábado, 6 de novembro de 2010

Filha de nordestinos que ama o Brasil sem fronteiras



Por Adriana Macedo*

Nasci em São Paulo, como milhões de paulistanos, apenas pelo fato de meus pais, trabalhadores rurais no sertão cearence, não encontrarem naquela época condições mínimas de trabalho e renda para manterem suas famílias com dignidade.
Para cá vieram ainda na década de 60, mais precisamente em 1968, pleno ano da ditadura pesada, do AI-5.

Lembro de que minha casa era sempre cheia de parentes. Quem já tinha casa recebia os outros, até que esses se estabilizassem e pudessem garantir o seu teto. Eram tempos difíceis, mas de muita solidariedade e muito, muito trabalho.

Meu pai aqui aprendeu o ofício de marceneiro, no qual trabalhou durante toda a sua vida. Levou marmita, pegou ônibus lotado, acordou às 5h da manhã, respirou muito pó de serragem e ouviu muito barulho alto de máquina, durante 30 anos de trabalho.

Me recordo com muito carinho da rotina diária de minha mãe, olhando-o descer do ônibus às 18h em ponto e indo colocar sua janta na mesa, para assim que ele entrasse, a comidinha estivesse lá, quentinha, para quem vinha faminto de um dia inteiro de trabalho pesado. Aquela comida simples tinha gosto de amor, de afeto, de cuidado...

E foi nessa luta, que Francisco mandou os três filhos para a faculdade (dois deles para a faculdade pública), o que sempre foi sua grande meta de vida.

Lá no bairro da Freguesia do Ó, eu nunca tinha sentido o preconceito, pois a grande maioria era formada por nordestinos, ou imigrantes mineiros, nortistas. Mas, conforme fui crescendo e adentrando a outras regiões da cidade, ouvi muitas barbaridades, muitas agressões, muitas discriminações que não entendia e com as quais me revoltava. Já briguei muito defendendo os nordestinos, quem me conhece sabe como eu era mais combativa, revoltada e até agressiva.

Hoje, vejo esses atos fascistas, xenofóbicos, preconceituosos e criminosos (divulgados no Twitter contra os nordestinos, em virtude da vitória da candidata Dilma Rousseff para presidente), vindo de pessoas jovens, que têm formação e informação, e me dá uma profunda tristeza, uma sensação de que não estamos evoluindo enquanto nação, enquanto cidadãos, enquanto seres humanos.

Que tipo de valores esses jovens estão recebendo em casa para disseminar tanto ódio gratuito, tanta barbaridade, tanta violência?

Eu sempre defendi um Brasil sem fronteiras, um mundo sem fronteiras. As cidades, estados, regiões, países são apenas divisões políticas e administrativas, a Terra é inteira, única, completa.

Ao mesmo tempo, amo e admiro as diferenças. Que lindo país temos, com tantas culturas, tantos sotaques, como adoro o "oxente" baiano, o sotaque cheio de “s” do carioca, os “uais” mineiros... Aliás, também repugno essa rixa estúpida entre paulistas e cariocas. Sou paulistana e amo o Rio de Janeiro.

Como é gostoso viajar e ouvir diferentes formas de pronúncia, comer comidas diferentes. Como aprendemos como viviam os europeus quando vamos ao sul, e as culturas africanas na Bahia. E a variedade de cores de pele, olhos, cabelos, como é rico e belo.

Que triste seria se todos tivéssemos a mesma aparência, o mesmo sotaque, o mesmo modo de pensar... Seríamos como robôs, cópias clonadas, máquinas. Viva a diferença! E é respeitando as diferenças que percebemos que, na essência, somos todos realmente iguais!

*Adriana Macedo é jornalista.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 173


Ilustração: Loredano

O senhor vai votar na Dilma, né?

Por Miguel Arcanjo Prado*

Nesta sexta-feira, cheguei morto da redação em casa, gripado, cansado. Meu porteiro me aguardava em frente ao elevador com um sorriso todo simpático no rosto.

Logo pensei: aí vem piadinha pela frente, já que ele tem um humor que nem um tsunami consegue abalar. E qual não foi a surpresa quando ele vaticinou, num tom todo curioso:

- O senhor vai votar na Dilma no domingo, né?

Resolvi jogar pesado e não dei a certeza que ele tanto queria. Contestei com outra pergunta:

- Por quê?

Logo ele me pôs a explicar, num tom professoral.

- Porque ela vai continuar tudo o que o Lula fez pela gente, né? Se o outro ganha eu não boto fé... Muda tudo pra pior.

Fiz-me de rogado e quis saber qual seria esse tão aclamado feito do tal do Lula por todos nós. Ele continuou, mais empolgado e confiante.

- O Lula pagou toda a nossa dívida. Porque antes só queriam ir lá no estrangeiro e pedir emprestado para colocar tudo no bolso. O Lula, não. Ele pagou tudo. A gente agora não deve nada a ninguém.

Continuei dando corda. Seu João respirou fundo e prosseguiu o discurso.

- Agora a gente tem emprego, né. Eu mesmo, já fiquei muito na fila do desemprego e sei como é. E os pobres estão todinhos de barriga cheia. Antes era aquela fome, a gente não conseguia comprar biscoito e iogurte pros meninos. Agora dá para comprar.

Resolvi bancar o indignado e disse que, apesar disso tudo, ainda faltava melhorar muita coisa. Para minha surpresa, seu João concordou.

- Sim, falta muita coisa. Mas o Lula já deixou tudo no ponto para ela fazer. Agora, se o outro ganha, eu não sei não...

Ao ver que o elevador chegava no térreo, ele lembrou-se de satisfazer a sua curiosidade inicial.

- Mas o senhor, “seu” Miguel, vai votar na Dilma domingo, né?

Resolvi terminar logo com aquele sofrimento, até porque estava louco para subir, tomar um banho, comer e me atirar no sofá da sala para ver o debate da Globo debaixo das cobertas. Enquanto entrava no elevador, respondi:

- Vou, sim, seu João. Vou votar na Dilma. E sabe por quê? Porque eu assino embaixo em tudo o que o senhor disse.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e fica feliz quando descobre que pessoas a quem admira têm uma visão de mundo parecida com a dele.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 172



A simplicidade da felicidade

Por Miguel Arcanjo Prado*

A felicidade é simples como a pluma que o vento leva solta pelo ar, já dizia o poetinha que todos nós amamos, Vinicius de Moraes. Hoje, por exemplo, ela se fez diante dos meus olhos no menino que foi trabalhar com seu pai, motorista de ônibus na linha que liga Buenos Aires a Quilmes, município nos arredores, nesta segunda-feira de feriado argentino.

Feliz, a criança admirava seu progenitor com um olhar expressivo que tudo já dizia. Pequenino, abraçava as pernas de seu pai, concentrado em conduzir o veículo sem perder, contudo, a ternura daquele gesto, homem de tantas responsabilidades e dono de uma profissão que enchia de encanto os olhos daquele menino.

Seu pai era o responsável por conduzir toda aquela gente, cansada e espremida, para seus – poucos e, por isso, tão importantes – minutos de felicidade e paz no restante daquele dia regido pelo sol majestoso que se exibia lá fora pela janela.

A simples saída de Buenos Aires para a pacata Quilmes explicita o que é tão necessário e que, muitas vezes, deixamos de lado: o parar simplesmente para refletir a quanto anda nossa cota de felicidade. Muitas vezes, em nome de muita coisa que vamos esquecer logo depois, deixamos de lado a busca pelo sorriso farto e o bem estar.

Ser feliz é apenas estar em paz. De bem consigo mesmo e com o que há ao seu redor. Se não é possível mudar esse mundo que muitas vezes se pinta cheio de gente feia, careta, direitista e idiota, talvez basta que ignoremos essa turma que não vale a pena e abramos nossos olhos para aquelas pessoas que nos transmitem coisas boas – pode parecer mentira, mas elas existem, sim. Está bem, sei que não são muitas, mas as poucas que restam muitas vezes cruzam nossos caminhos.

E, para ser certeiro nesses momentos preciosos, é preciso estar atento e forte, como na canção do Caetano, sem tempo para temer a morte. É preciso criar o tempo para a vida – de fato, a que vale a pena. Para curtir a simplicidade que a traduz. Porque no final, é o simples que vai ficar. Coisas como um almoço de feriado feito com carinho, o silêncio de uma leitura de jornal compartida, a escolha da boa música que encherá o ambiente de alegria, aquele olhar cheio de silêncio e de significado junto às mãos entrelaçadas sob o sol que atesta que, sim, é possível ser feliz.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e é um homem feliz.

sábado, 11 de setembro de 2010

La Mirada Invisible y Los Pecados de Mi Padre



Estou de férias, já há quatro dias em Buenos Aires. Resolvi aproveitar este sábado à noite para ver um filme do qual os dois jornais daqui, o Clarín e o La Nacíon, falaram bem. Trata-se do ótimo "La Mirada Invisible".

A obra é um verdadeiro soco no estômago da hipocrisia que reinava nos tempos da ditadura e volta e meia tenta retornar, com seu culto às regras mediocrizantes. O diretor é Deigo Lerman.

Julieta Zylberberg (a lindíssima da foto acima) arrasa como a protagonista, Maria Teresa, uma professorinha virgem que gosta de se esconder no banheiro masculino do colégio para espiar um de seus alunos, pelo qual nutre uma paixão platônica. Omar Nuñez mostra o talento de sempre como um diretor que representa aquela idiotice chamada "moral e bons costumes", cujo fundo a gente já sabe que é um monte de podridão.

Abaixo, o trailer. Se puder, assista. É realmente ótimo!





Ontem, fui à mostra Panorama Colômbiano do Palais de Glace e assisti a outro filme também muito bom. Dessa vez, o documentário "Los Pecados de Mi Padre", no qual Sebastián Marroquín (o moço da foto acima) passa a limpo a vida de seu pai, Pablo Escobar, o mais famoso narcotraficante do mundo que, no fim da década de 1980, controlou 80% do tráfico de cocaína do mundo todo.

Ao fim da projeção, descobri que estava sentado o tempo todo ao lado da viúva de Pablo Escobar, María Isabel Caballero. Tanto ela quanto seu filho, hoje um arquiteto respeitado, vivem em Buenos Aires. Mas passaram por maus bocados até chegarem aqui, como bem mostra o filme.

Sebastián apareceu após os créditos finais em carne e osso e pegou uma plateia emocionada com o conteúdo maior do documentário: o pedido de perdão dele aos filhos de Luis Carlos Gallán, líder político colombiano que seu pai mandou matar.

Ao fim do debate, Sebastián me contou por que aceitou fazer o filme: "Quis que nada sobre a vida de meu pai ficasse oculto, porque queria construir uma mensagem através da história de vida dele, para que ela não se repita. Achava muito egoísta da minha parte não compartilhar a lição de vida que aprendi. Quero que esse filme seja visto pela maior quantidade possível de jovens, para que ele ajude a mudar o futuro."

Faz ele muito bem. Para quem se interessou pelo documentário dirigido por Nicolás Entel, abaixo, o trailer:

sábado, 4 de setembro de 2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 171

Que saudade da Cássia!

Por Miguel Arcanjo Prado*


Uma coluna como esta às vezes traz boas surpresas. A última, deliciosa, foi um e-mail que recebi de Cássia Teixeira Campos, minha melhor amiga dos tempos de colégio, hoje turismóloga respeitada com diploma da Universidade Federal de Ouro Preto. Em seu e-mail, com razão, Cássia queixou-se do meu desaparecimento e de só saber das minhas andanças por meio de meus textos. E confessou: anda muito nostálgica nesses dias.

Eu também. Que saudade dos tempos em que acordava às seis da manhã, tomava o café correndo e descia desenfreado a rua Madre Tereza, cruzava as avenidas Vilarinhos e Padre Pedro Pinto até chegar à rua de Cássia, onde batia em seu portão e ela aparecia sonolenta para, juntos, caminharmos até a Escola Estadual Santos Dumont, em Belo Horizonte, onde cursamos juntos o Ensino Médio.

Cássia chegou na escola ressabiada, vinda de Três Corações, no sul de Minas, transferida com a família para a capital. Logo, com seus cabelos pretos encaracolados que contrastavam com os olhos verdes enormes, conquistou todo mundo. Se bem que nosso colega Ricardo de Andrade Barcellos, hoje terminando o curso de engenharia civil na UFMG, sempre teimou que os olhos da Cássia são azuis. Eu nunca soube esta verdade.

Inteligentíssima, Cássia sempre rivalizou comigo e com Thiago Nascimento Rodrigues – o CDF da sala – em quem tinha as notas mais altas da turma. Mas, ao contrário de Thiago, que adorava competir, Cássia nem ligava para isso, já que não concentrava seu saber apenas na matemática ou história, mas também nas relações humanas. Em poucas semanas ela já era a menina mais popular da sala. Todo mundo queria ser amigo da Cássia.

Escritora nata, adorava mandar cartas para as amigas que havia deixado em Três Corações, para as quais, em pouquíssimo tempo, passei a escrever também, fazendo uso do selo social, dádiva governamental que permite mandar carta de até dez gramas pagando apenas um centavo – é assim até hoje.

Politizada, Cássia era esquerdista, sonhava em ver o Lula presidente e tinha pavor quando eu falava que ACM era bom para a Bahia, influenciado pelo pensamento de minha madrinha, Zélia Gattai. Ela queria me matar.

Culta, vivia na biblioteca. Lia Machado, Guimarães, Jorge. Mas nunca ganhou de mim na quantidade de livros retirados por ano. Nessa categoria sempre fui imbatível, com no mínimo 60 livros lidos no ano letivo, o que me fazia o queridinho da bibliotecária.

A volta da aula, no horário do almoço, também sempre era uma festa. Levávamos horas, parando em todas as lojas possíveis da avenida Padre Pedro Pinto. Mas uma era obrigatória: a paradinha no supermercado Êpa, para comprar sorvete. Na maioria das vezes, Cássia pagava para mim. De morango, eu pedia.

E as festas da Cássia, então? Todo o colégio disputava a dádiva de ser convidado. Aniversariante em pleno Dia de Finados, 2 de novembro, ela nunca se fez de rogada. Muito pelo contrário, aproveitava o feriado para encher a casa de gente.

Os 18 anos da Cássia, às vésperas da chega do fatídico ano 2000, foi um verdadeiro acontecimento, uma espécie de catarse coletiva, já que o nosso segundo grau chegava também ao fim naquele ano cheio de presságios. Era o fim de uma era e à nossa frente restavam apenas a incerteza dos vestibulares da UFMG e da UFOP. Por isso, todos naquela festa aproveitamos cada minuto para esquecer a vida adulta que teimava em bater à porta.

De família vinda de São João Evangelista, cidadezinha nos arredores de Guanhães, no leste de Minas, fartura sempre foi palavra pequena para definir as festas de Cássia: churrasco, arroz à grega e salpicão – cuja receita foi incorporada por minha mãe, que chama o prato delicioso até hoje de “Salpicão da Cássia” –; e também bolo e toneladas de sorvete em potes industriais.

Foi nos 18 anos da Cássia que beijei pela primeira vez a minha primeira namorada, Bruna Lima, hoje fazendo mestrado em Letras, em Paris. Foi bem no finzinho da festa, jamais vou me esquecer. Cássia armou tudo nos mínimos detalhes até ficarmos os dois, sozinhos, no portão de sua casa. É claro que não tinha como não rolar. Danada, essa Cássia. Que saudade!

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e faz questão de estar na próxima festa da Cássia.

domingo, 8 de agosto de 2010

Amigo é coisa pra se guardar...


Os verdadeiros amigos são para sempre. Como é o caso de Rafael Brischiliari, meu amigo "Paraná" dos tempos do curso de comunicação na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, a Fafich, na UFMG. Posso ficar meses e até anos sem vê-lo, mas quando a gente se reencontra, é como se o último tchau tivesse soado há menos de 24 horas. A fotógrafa Daia Oliver registrou nosso encontro mais recente, no dia 9 de junho de 2010, em São Paulo. Com Rafa e eu lado a lado nunca há tempo feio. A gente sempre se entende.

Coluna do Miguel Arcanjo nº 170

No primeiro debate, venceu o futebol

Por Miguel Arcanjo Prado*


Tudo bem, eu já sei que ninguém viu inteirinho o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República na noite da última quinta, na Band. Mas como os tempos são do controle remoto, é claro que todo mundo deu uma passadinha para conferir como o quarteto fantástico estava se saindo. O resultado foi único: uma dureza só.


Saudades dos tempos em que o debate era a própria representação do bem contra o mal. Como em 1989, com o barbudão Lula contra o mauricinho Collor. Os tempos da Nova República até davam ao telespectador o direito escolher, de acordo com suas faculdades mentais, quem era o bem e quem era o mal. Se bem que depois a Globo editou tudo e escolheu quem era o herói – que pouco tempo depois virou o vilão...

Na eleição atual a briga só esquenta quando entra na pauta a falta de carisma. Talvez seja por isso que o Plínio Arruda Sampaio, o candidato do PSOL, tenha sido o bamba do primeiro debate, figurando como o rei dos comentários no Twitter, a tal rede social na qual todo mundo sai falando o que bem entende. Com sua cara de duende mágico, Plínio não demonstrou vergonha alguma ao propagar seu pensamento político em desuso desde que os crimes de Stalin foram revelados. Mas pelo menos ele divertiu a plateia. Aliás, foi a única diversão.

Marina Silva, pobrezinha, foi a certinha de sempre quando o assunto era ecologia, mas faltou-lhe viço. Ficou lá em sua bancada, fraquinha, magrinha, toda corretinha. A representante do Partido Verde não renegou o passado petista, não atacou os tucanos. Só queria mostrar sua proposta cheia de boas intenções para um futuro sustentável para todos nós. Que bom, né?

Agora, quando a câmera chegou aos dois protagonistas da eleição, foi difícil saber quem tentava melhor esconder a alma de lobo sob a pele de cordeiro. Mas logo um deles se sobressaiu: o tucano José Serra, bem mais preparado para o jogo midiático do que a petista Dilma Rousseff.

A candidata de Lula mostrou que está a anos-luz do traquejo de Serra diante das câmeras. O ex-governador de São Paulo consegue fingir melhor ser simpático – se bem que a filha dele pediu que o político sorrisse mais. Dilma ainda está carrancuda, claramente desconfortável com essa história de maquiagem e falar para a câmera certa. Mas até que tentou, tadinha. Se não acertou, pelo menos não errou. O que já é um grande saldo.

O resultado de tanta falta de gosto foi o que aconteceu: míseros 3 pontos no Ibope para do debate presidencial, contra 31 do jogo entre Inter e São Paulo pela Libertadores, exibido pela astuta Globo. No primeiro debate, venceu o futebol.

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É completamente estapafúrdia a Lei Eleitoral que proíbe os humoristas de fazerem piada com os candidatos. Agora, nem rir dos excomungados a gente pode mais. CQCs, Pânicos e Cassetas já anunciam uma passeata contra a censura que deve sacudir a praia de Copacabana no próximo dia 22. O Brasil está cada vez mais careta. E sem graça. Pobres de nós!

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e a favor do desbunde.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Bastidores: Inezita e Cauby

No dia 16 de junho de 2010, tive o prazer de entrevistar dois monstros da cultura brasileira. Primeiro foi a vez de Inezita Barroso, que completava 30 anos de seu programa, o Viola, Minha Viola. Depois, foi a vez de Cauby Peixoto, que se apresentava no Memorial da América Latina, em São Paulo. A competente fotógrafa Julia Chequer fez o registro para a posteridade. Taí:



domingo, 25 de julho de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 169


Eve

Por Miguel Arcanjo Prado*


Esta é primeira coluna feita por encomenda de um leitor. No caso, uma leitora. E que leitora. Outro dia, encontrei-me com ela, Silvana Garzaro, a maior fotógrafa de celebridades deste país, na estação de ônibus Amaral Gurgel, em Santa Cecília, no centro de São Paulo. Conversa vai, conversa vem, lembrei-me de contar a ela que, até que enfim, havia assistido ao filme A Malvada, ou All About Eve, no título original em inglês.

Peguei o DVD emprestado com a amiga jornalista Gabriela Quintela, que não é boba nada e tem a preciosidade em sua coleção. Satisfeita com a notícia, afinal de contas desde os tempos em que formávamos a mais divertida dupla de reportagem da revista Contigo! Silvana vivia insistindo para que visse o filme, ela sugeriu: “Por que você não escreve sobre A Malvada em sua coluna?”. Pedido de Silvana é ordem.

Para quem não viu – o que é inadmissível; portanto, corra urgentemente para resolver esse grave problema –, uma breve sinopse: o longa de 1950 dirigido por Joseph L. Mankiewicz conta a história de Margo (Bette Davis), atriz consagrada que vê sua vida ser transformada com a chegada da doce Eve (Anne Baxter), uma jovem aspirante a atriz.

Como um oráculo, o filme é uma verdadeira bíblia das relações humanas, sobretudo no campo profissional regado a muito glamour e pavonices, como o é o do jornalismo, o da fotografia e o das artes. Só depois de ver o filme é que você, meu caro leitor, entenderá o porquê de, sempre que vê nas pautas da vida jovenzinhos mal saído das fraldas e todos cheios de si e, principalmente, deslumbrados com o grand monde, Silvana dispara com a certeza de um pajé: “Eve!”

E as Eve são muitas. Vivem espalhadas por todos os cantos, mantendo seus jeitinhos dóceis e subservientes até estarem certas de que seu bote será infalível e que vão conquistar aquilo que tanto almejam. Elas são ótimas em interpretação. Dão banho em qualquer Fernanda Montenegro por aí. Se bem que algumas deixam, em algum momento, escapar uma certa dose de canastrice, até porque representar oito, 12 horas por dia não é lá coisa muito fácil. É aí que a atenção é fundamental. Esses pequenos momentos são reveladores.

É claro que também o sexto sentido ajuda. Mas esse é impossível ensinar, já que Deus o concede apenas a alguns. Graças a Deus, fui agraciado; assim como meu primo Caio Silva, sempre por perto. É esse dom que permite, com um só olhar de raio X, descortinar por trás da alma pretensamente dócil a víbora que se esconde. Porque, meu caro leitor, energia é impossível de se conter.

Para quem não tem lá esse trânsito para as coisas que não se veem, mas se sentem, fica uma preciosa dica. Quando se aproximar de você uma pessoa muito boazinha, solícita e elogiosa, sobretudo se tiver em posição inferior e você perceber nela uma dosinha que seja de ambição, pode saber: é Eve! Simples assim. Por mais que ela se esgueire em sorrisos e salamaleques, esteja certo de que, mais dia menos dia, o bote virá. E você, com toda a certeza, nesse momento poderá decretar, tal qual Silvana Garzaro: “Eve!”

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e pretende ver novamente o filme A Malvada.