sábado, 5 de junho de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 166

O significado da derrota de Martinho da Vila na ABL

Por Miguel Arcanjo Prado*



A Academia Brasileira de Letras, a ABL, instalada no pomposo palácio do Castelo, na região central do Rio, elegeu nesta semana seu novo membro. Aos 71 anos, o diplomata e escritor pernambucano Geraldo Holanda Cavalcanti abocanhou a cadeira de número 29. A vitória foi bonita, com 51% da preferência dos acadêmicos: dos 39 votos possíveis, recebeu 20. Mas o mais intrigante dessa eleição dos imortais não está no vitorioso, mas, sim, na lista dos que ficaram de fora.

Além de Cavalcanti, concorriam também o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Muniz Sodré, o ministro do Supremo Tribunal Federal Eros Grau, e o sambista Martinho da Vila. É aí que mora o x da questão. Dos 19 votos que sobraram, Grau ficou com dez, e Sodré, com oito. O último foi em branco. Martinho não recebeu um votozinho sequer. Isso mesmo, o mestre do samba da Vila Isabel não conseguiu convencer nem o mais gagá dos velhinhos da ABL a depositarem seu nome na urna. E isso mesmo depois de levar a bateria da Vila Isabel para uma animada roda de samba no Palácio Trianon promovida em parceria com o presidente da casa, Marcos Vilaça. Nem isso foi suficiente para modernizar as velhas cabeças responsáveis pela língua brasileira.

Ao não votar em Martinho, a ABL manda um recado. Considera-se bem distante – e, por que não?, bem melhor – do que essa culturazinha inferior feita por gente pobre – e preta – exemplificada pelo samba de Martinho da Vila. A razão da não-eleição do compositor da zona norte é a mesma que fez a ABL rejeitar por duas vezes o jornalista negro e homossexual João do Rio (1881-1921), que só conseguiu a vitória em sua terceira tentativa, há exatos cem anos. Em sua posse, atrevido como só, fez questão de não usar um fraque qualquer – mandou costurar uma vistosa vestimenta, instituindo o famigerado fardão. Quem sabe na terceira tentativa Martinho não tem a mesma sorte que João do Rio? Resta sonhar.

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Mesmo falando as mesmas coisas que já havia dito quando voltou à TV, no dia 8 de março último, Hebe Camargo, aos 81 anos, é a entrevistada da volta de Marília Gabriela ao SBT neste domingo e da revista Veja desta semana. Pouco importa que não seja material novo. O que interessa é que ela tem uma vontade de dizer a todo mundo o quanto ama a vida. No ano passado, na semana em que completou 80 anos, Hebe me deixou isso claro enquanto conversávamos em seu camarim no SBT. Rindo à beça, contou-me que comemoraria o aniversário na Disneylândia. Quando nos despedimos, fez questão de apertar minhas bochechas, me chamando de “gracinha” – coisa que costuma fazer sempre que nos encontramos nas pautas da vida. Dá gosto ver Hebe celebrada e saltitando por aí nas festas paulistanas. Dá orgulho de ser contemporâneo desta mulher, mesmo ela tendo nascido em 8 de março de 1929 e eu, em 3 de dezembro de 1981. Dá vontade de acreditar que Hebe vai durar para sempre. Oxalá.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e não tem muita paciência para velhinhos conservadores.

PS. Abaixo, uma belo registro do carisma de Hebe feito pela minha parceirinha de pauta, a fotógrafa Julia Chequer, para o R7, no dia em que ela voltou à TV:

sábado, 15 de maio de 2010

Entrevista exclusiva: Silvio de Abreu

Silvio de Abreu rejeita público que vê novela por não ter mais o que fazer

Em conversa exclusiva com o R7, novelista fala sobre a próxima novela das oito


Miguel Arcanjo Prado, do R7

Publicado originalmente no R7 em 11/05/2010


Silvio de Abreu e Tony Ramos - Foto: João Miguel Jr./Globo

O paulistano Silvio de Abreu, 67 anos, já está completamente mergulhado na loucura que é escrever o programa mais visto pelos brasileiros: a novela das oito da Globo. Nesta segunda (17), estreia seu 15º folhetim, Passione. A trama de elenco estelar tem a missão de alavancar a audiência, após Viver a Vida, de Manoel Carlos.

Atencioso, Silvio de Abreu aceitou o convite para uma conversa com o R7 sobre seu próximo trabalho. O autor disse rejeitar o telespectador que acompanha as novelas apenas por não ter nada melhor para fazer: “Quero distância desse público”. Sua meta é dialogar com alguém apaixonado e envolvido com a história que vai criar.

Abreu ainda comentou a predileção por nomes da velha guarda da TV, como Fernanda Montenegro e Tony Ramos, e explica por que escolheu São Paulo e Itália como cenários de sua trama. Ele ainda contou que teve papel decisivo na escolha do elenco e revelou que apenas sete atores não tiveram personagens escritos sob encomenda.

Sobre o grande assassinato por volta do centésimo capítulo do qual boa parte dos personagens será suspeita, ele faz mistério, mas adianta que não será um serial killer, além de uma dica importante ao telespectador. Leia a entrevista.

R7 – O elenco de sua novela é estelar e impressiona por ter nomes como Fernanda Montenegro e Tony Ramos. Foi difícil conseguir formá-lo? Quais nomes você fez questão que estivessem e para os quais escreveu os personagens? Por que?
Silvio de Abreu –
Belíssima tinha Fernanda Montenegro e Tony Ramos; A Incrível História das Filhas da Mãe no Jardim do Éden tinha Fernanda Montenegro e Tony Ramos. Para mim é sempre um privilégio poder contar com esses dois magníficos atores. Não é difícil para eu formar elenco, nem entendo quando dizem que na Globo, hoje em dia, é muito difícil etc e tal. Os atores e as atrizes recebem sempre de boa vontade o convite e o meu maior problema é sempre ter que dizer não a artistas que admiro, que gostaria de ter no elenco, mas não tenho personagens adequados a eles. Quase todos os atores principais de Passione tiveram personagens escritos para eles, porque eu já sabia que poderia contar com o talento deles no elenco. As exceções foram: Tammy Di Calafiori, Mayana Moura, Miguel Roncato, Andre Luis Frambach, Carol Macedo, Bianca Bin e Julio Andrade, que eram atores que eu não conhecia e passei a conhecer graças ao excelente trabalho de garimpagem do nosso produtor de elenco, Daniel Berlinsky, e da intuição certeira de Denise Saraceni.

R7 – Sua novela vai mostrar uma São Paulo frenética e uma Itália rural. Por que você escolheu conjugar esses dois ambientes?
Abreu –
Primeiro, porque são opostos e isso dará uma excelente dinâmica para a novela. Depois, porque gosto e conheço os dois. Denise Saraceni e eu visitamos quase 5.000 quilômetros de terras da Toscana na escolha das locações e estudo dos hábitos e costumes dos italianos. Vivo em São Paulo desde que nasci e já morei por um ano na Itália na década de 70. Sinto-me em casa nos dois ambientes.

R7 – Sua trama traz de volta gente veterana de muito talento como Fernanda Montenegro, Leonardo Villar, Cleyde Yáconis e Aracy Balabanian. Por que você faz questão desses nomes? Qual o papel deles em seu elenco? Gosta de criar personagens para essa turma? Por quê?
Abreu –
O que eu mais aprecio no ser humano é o talento. Quando um enorme talento vem acompanhado de um grande carisma, tudo se completa e criam-se as estrelas de teatro, cinema e televisão. Não existe um time mais carismático e talentoso do que o que vamos oferecer diariamente ao público brasileiro. Escrever para atores tão consagrados é uma grande responsabilidade, mas também um enorme prazer.

R7 – Tem algum personagem que você gosta mais? Por quê?
Abreu –
Não tenho nenhum preferido, cada um é principal em seu próprio núcleo e será tratado com o maior carinho por mim.

R7 – Sua novela vem após uma crise de audiência no horário das oito. Acha que Passione tem elementos para cativar o público e levantar a audiência no horário? Quais elementos são esses?
Abreu –
Não estou preocupado com isso e nem sei dessa tal crise de audiência de que você está falando. O programa de maior audiência da televisão brasileira não é a novela das 21h? Então que crise é essa? Quero que o público goste de Passione, que se divirta, que torça, que se envolva com a história e com os personagens. Quero que discutam, contestem, elogiem, critiquem e façam o que forem estimulados pela novela a fazer. Só não quero que fiquem apáticos diante do televisor. Odeio a ideia de que as pessoas assistem a novelas porque não têm nada melhor para fazer. Não quero esse público. Quero um público que goste de acompanhar a história por prazer e sei que cabe a mim, à Denise Saraceni e ao nosso elenco despertar esta emoção.

R7 – Como será o assassinato no meio da trama de Passione?
Abreu –
Você vai saber tudo quando chegar a ocasião, ainda é muito cedo para essas especulações. Posso garantir que não será um serial killer. A única dica que posso dar sobre este assunto é que se preste muita atenção no comportamento dos personagens nessa primeira fase da história, que vai mais ou menos até o capitulo cem. A parte policial da novela só vai entrar depois disso, mas tem a ver com essa primeira fase, portanto, olho vivo!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Negro é coadjuvante em sua própria história na TV

Folhetins que retratam a escravidão ainda contam os fatos a partir do olhar dos brancos



Miguel Arcanjo Prado, do R7

Nas histórias que a TV brasileira conta sobre a escravidão no Brasil é comum ver atores negros ocuparem papéis coadjuvantes e atores brancos serem os protagonistas. Neste 13 de Maio, data em que é celebrada a abolição da escravatura no Brasil, a reportagem do R7 foi atrás de descobrir o por quê desse tipo de representação.

DivulgaçãoFoto por Divulgação
Veja escravos nas tramasIgual aos brancos: a ex-escrava Xica (Taís Araújo) até usava pó de arroz para clarear o rosto

Para Daniel Martins, mestre em sociologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a representação dos escravos nas novelas e minisséries repete a história que os brasileiros aprendem na escola.

- A novela é apenas mais um espaço no qual é reproduzido o discurso que aprendemos nos livros de história, no qual o negro ainda é apenas o escravo que foi liberto por bondade da princesa Isabel [que assinou a libertação dos escravos em 1888].

O sociólogo faz questão de lembrar a primeira novela brasileira protagonizada por uma atriz negra: Xica da Silva, protagonizada por Taís Araújo na extinta Manchete entre 1996 e 1997.

- Ela era protagonista, sim. Mas conseguiu se tornar mulher do contratador de diamantes, teve escravos e assumiu a identidade branca. Ela até passava pó de arroz no rosto, para ficar com a pele clara.

Martins afirma que ainda falta na TV uma produção que retrate o cotidiano do Brasil escravocrata a partir do olhar dos habitantes da senzala, mas se mostra descrente em relação à receptividade do telespectador.

- Acho que o brasileiro ainda é preconceituoso e não sei se uma novela assim teria bons índices de audiência. Por isso, acho difícil essa revolução acontecer. Na TV, como em Sinhá Moça, os negros ainda precisam ser salvos pelos brancos. A novela ainda não conseguiu sair da casa grande e ir de fato para a senzala.

Atriz da Record, Maria Ceiça afirma que não acredita que o público tenha preconceito, mas, sim, esteja desacostumado em ver o olhar do negro em primeiro plano.

- As novelas ainda contam a história a partir do olhar do dominador. O telespectador sempre trata com carinho os personagens negros. Mudar o olhar da história seria interessantíssimo e creio que teria boa recepção por parte do público.

A atriz, que recentemente viveu a serva Quinlá na minissérie A História de Ester, torce para que a Record continue investindo na produção de épicos e até sugere uma história bíblica em que o negro tivesse destaque.

- A rainha de Sabá era negra e teve muito destaque... Quem sabe não vem por aí a história do rei Salomão?

Publicada originalmente no R7 em 13/05/2010.

Nara Lofego Leão

Narinha...
Sempre fui apaixonado por ela. Não sei se porque ela sempre me lembrou minha mãe...
Quem mora em Sampa, pode ver o musical sobre a cantora cheia de opinião idealizado pela ótima atriz Fernanda Couto, que interpreta a cantora. Quem se interessou e quer saber mais, é só ler a crítica e a reportagem sobre o musical feitas por mim para o portal R7 sobre o espetáculo, logo abaixo, com fotos do espetáculo e da Narinha de verdade.










CRÍTICA:Musical Nara acerta na beleza da simplicidade

Fernanda Couto e seus três músicos criam atmosfera aconchegante para a musa da MPB

Miguel Arcanjo Prado, do R7


Nara Leão foi muito mais do que a musa da bossa nova ou a moça que tinha os mais belos joelhos da MPB. Apesar de sua meiguice evidente em cada canção ou entrevista, Nara tinha força, presença e, antes de tudo, opinião. A famosa opinião de Nara.

O musical que leva o nome da artista, em cartaz no teatro Augusta, em São Paulo, às quartas e quintas, tem o mérito de reavivar a memória da cantora, em tempos cada vez mais desmemoriados. A atriz Fernanda Couto, que vive a artista no palco e é responsável pela gestão do espetáculo, surge despretensiosamente no corredor do teatro ao som de Diz que Fui por Aí. O público olha para trás em busca da dona daquela voz e, a partir daí, a música de Nara se faz.

Sob direção de Márcio Araújo e direção musical de Pedro Paulo Bogossian, Fernanda é acompanhada no palco por três excelentes músicos: Rogério Romera, Sílvio Venosa e Rodrigo Sanches. Além de tocar e fazer coro, eles fazem às vezes de atores, interpretando os homens que passaram pela vida de Nara. E que homens: Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Cacá Diegues são apenas alguns de uma extensa lista que engloba boa parte da cultura nacional na segunda metade do século 20. E o trio de músicos tem a graça e virilidade necessárias para contrabalancear a meiguice de Nara.

Com açúcar e com afeto, Fernanda – que tem a mesma beleza simples da cantora – ora vive a própria Nara ora fala dela na terceira pessoa, como uma artista em busca de outra tão semelhante de si. Há momentos de extrema consternação, quando a plateia vira o público dos famosos festivais da Record nos anos 1960 e canta em uníssono A Banda junto do elenco. E ainda emocionantes, como quando o público percebe que Nara já sente reflexos do tumor cerebral, que a matou em 7 de junho de 1989 com apenas 47 anos de idade, mas que jamais conseguiu calar a voz da menina mais doce que já existiu em nossa música.

O mérito do musical Nara é, em tempos de cenários mirabolantes e elencos grandiosos de produções importadas da Broadway, mostrar que a beleza pode estar escondida em um tipo de arte que só existe por aqui, arte da qual Nara foi e é porta-bandeira.

Nara
Quando:
quartas e quintas-feiras, às 21h (temporada: de 21/4 a 24/6)
Onde: Teatro Augusta - r. Augusta, 943, Cerqueira César, São Paulo, SP
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Informações: (11) 3151-4141; classificação livre

Publicado no R7 no dia 13/05/2010.












REPORTAGEM
Musical em São Paulo revive Nara Leão

Atriz Fernanda Couto vive a musa da bossa nova e grande intérprete da MPB

Miguel Arcanjo Prado, do R7


Foi a partir do apartamento de Nara Leão que a bossa nova ganhou expressão. A musa do movimento depois descobriu nomes que vão de Chico Buarque a Maria Bethânia, além de fazer o histórico show Opinião, no qual deu foco a sambistas dos morros cariocas.

Lenise Pinheiro e DivulgaçãoFoto por Lenise Pinheiro e Divulgação
Nara em duas versões: a atriz Fernanda Couto (à esq.) e a Nara original (à dir.)

Passagens como essas mudaram a história da MPB e serão contadas no musical Nara, que estreia em São Paulo nesta quarta (21), às 21h, no teatro Augusta, com a atriz Fernanda Couto no papel título.

A montagem é fruto de pesquisa da própria Fernanda, apaixonada por Nara desde criança, quando a ouvia no rádio. No palco, será a única mulher na companhia dos atores-músicos Rogério Romera, Sílvio Venosa e Rodrigo Sanches, sob direção de Márcio Araújo e direção musical de Pedro Paulo Bogossian.

- Nara sempre estava cercada de figuras masculinas, como Ronaldo Bôscoli [de quem foi namorada], Chico Buarque [o grande amigo] e Cacá Diegues [com quem casou].

A atriz teve a ideia do espetáculo em 2007, quando passou a pesquisar a vida da cantora. O projeto foi adiado para não bater com os 50 anos da bossa nova, celebrados em 2008. A pesquisa minuciosa trouxe farto material.

- Todas as frases que a Nara diz na peça foram ditas por ela mesma em entrevistas.

O espetáculo segue a ordem cronológica da vida da cantora, dos 11 anos 47 anos, quando ela morreu de câncer. A trajetória é ilustrada por uma seleção de 20 músicas de seu repertório, como A Banda e Opinião.

Ouvir Nara traz nostalgia para a jornalista Tellé Cardim, editora de Cultura da Record. Ela foi responsável pela divulgação da cantora em São Paulo na década de 1960.

- Depois do Festival da Record de 1966, no qual ela tirou o primeiro lugar com A Banda, ao lado de Chico Buarque, Nara me telefonou e perguntou se eu queria ser assessora de imprensa dela. Eu aceitei e a acompanhava nas entrevistas e em shows no interior.

A jornalista lembra com carinho da amiga que conheceu em um almoço na casa do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, criador da série A Grande Família.

- Ela era muito inteligente e caseira. Nara gostava de pesquisar a música brasileira. Não tinha preconceito e possuía posicionamento político, sempre apoiando a esquerda. Era uma pessoa especial e que faz falta. Espero que esse espetáculo mostre à juventude atual a importância que Nara teve na história do Brasil naqueles anos de chumbo.

Para o sociólogo Daniel Martins, pesquisador da MPB na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Nara marcou seu nome na história “ao dar voz a grandes compositores ainda desconhecidos”.

- Nara tinha um respaldo muito grande. Ela dava luz a qualquer coisa que cantasse. Esse foi seu grande legado. Ela transitou bem por todos os núcleos da MPB, da qual foi uma das maiores estrelas.

Publicado no R7 no dia 21/04/2010.

domingo, 9 de maio de 2010

Paulo José e filha decifram enigma Ana C.



Por Miguel Arcanjo Prado*

A poeta carioca Ana Cristina César, ou apenas Ana C., era uma mulher inteligente. E atormentada por isso. O ator Paulo José a conheceu na Globo, quando escrevia o programa Caso Verdade, no início dos anos 1980, e se incomodava com as opiniões dilacerantes dadas pela exigente Ana C., então avaliadora dos roteiros, sobre os textos que escrevia.

O ator retoma essa mulher de seu passado na peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César, que estreia neste sábado, no Sesc Santana. Na montagem, Paulo José conta com a companhia da filha, Ana Kutner, que vive a poeta suicida.

Após várias tentativas frustradas, Ana conseguiu se matar aos 31 anos, em 1983, ao pular da janela do apartamento dos pais, em Copacabana.

A peça, vista pelo R7 no Festival de Curitiba, no último mês de março, traz uma mulher cheia de ideias e pensamentos sobre o mundo desde que se entende por gente. Paulo José funciona como uma espécie de narrador, que se confunde com ele mesmo, ao margear os pensamentos da poeta interpretada pela filha, muitas vezes cercados de desespero.

Ana C., ícone da chamada “geração do mimeógrafo” dos anos 1970, surge para o público a partir de seus escritos e, aos poucos, é possível ao menos tatear aquela que tanto se escondia. A dramaturgia construída por Walter Daguerre, marido de Ana Kutner, sobre o texto de Maria Helena Kühner, une poesia e teatro de forma exemplar, saindo da possível chatice de um monólogo ao estabelecer o diálogo entre os dois atores e a plateia.

A peça, apesar de sua difícil compreensão num primeiro olhar, consegue chegar com a inteligência típica de Ana C. perto de decifrar aquela mulher que foi um verdadeiro enigma até a hora do fim.

Serviço:
Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César
Quando: sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h30
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, São Paulo, SP);
Quanto: R$ 20
Informações: 0/xx/11 2971-8700; classificação 14 anos

* Publicado originalmente no R7.

sábado, 8 de maio de 2010

Leila Cordeiro

Recentemente, gostei muito de entrevistar a jornalista Leila Cordeiro para o portal R7. Na conversa, ela falou de seu desejo de voltar à TV. Quem é bem novinho e não se lembra dela nos principais telejornais de emissoras como Globo, Manchete e SBT, pode ler a entrevista para conhecê-la um pouco mais. Ou, melhor ainda, visitar o ótimo blog que ela faz direto de Miami, nos Estados Unidos, onde vive. Ah, e não esqueça de deixar seu comentário, né? Aquele abraço!


Leila, ao lado do marido, o também jornalista Eliakim Araújo

Abaixo, uma entrevista divertidíssima que a Leila Cordeiro fez com o Cazuza, ao vivo, no Rock in Rio, em 1985.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 165

Quando o amor bate à porta

Por Miguel Arcanjo Prado*



Já terminei de ler Madame Bovary. Livro que li exclusivamente por amor. Ah, o amor... Coisa estranha de se explicar em palavras, talvez mesmo impossível. Toma a gente de assalto sem nem avisar, trazendo angústia e excitação numa mistura cheia de encanto e todas as consequências possíveis. Lembro de minha mãe, que sempre repete: o amor jamais acaba. E não é que ela está certa?

Amor é coisa difícil de se ter. Até porque ele não manda telegrama avisando antecipadamente sua chegada. Quando o amor bate à porta, ele vem de uma vez, surpreendente. Muitas vezes nem bate, arromba, bandido.

E a gente fica bobo, pensativo, temeroso, ansioso, corajoso, romântico, triste, desesperado, feliz, tonto, esperto, emotivo, efusivo e inconstante. Tudo isso num só dia. Em casos excepcionais em poucas horas, eu diria.

Quando se ama, sobretudo nos primeiros tempos do amor, a aflição volta a fazer parte do cotidiano e caminha de mãos dadas com o desejo incontrolável de conquistar o ser amado e, mais do que tudo, ser amado por ele. Afinal de contas, como na música que compus recentemente: felicidade só tem quem é amado também.

Aí a gente faz loucuras de todos os tipos: manda orquídeas brancas no trabalho, ouve todas as opiniões possíveis de amigos e familiares que fazem torcida, atravessa a metrópole embaixo de chuva torrencial... Enfim, topa qualquer negócio só para sentir novamente o coração bater forte, a boca ficar seca, as mãos geladas, e as palavras, de uma hora para a outra, não precisarem ser ditas. Ah!... Como é terrível amar.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e ainda acredita no amor.

domingo, 2 de maio de 2010

Redação conjunta

O R7 conquistou espaço próprio e não mais divide a redação com o Jornalismo da Record. Morro de saudade daqueles tempos, sobretudo de ficar pertinho de gente do mais alto gabarito. Abaixo, fotos tiradas na redação-estúdio da Barra Funda, em São Paulo, em janeiro de 2010 com a máquina emprestada por Guta Nascimento:


Eu ao lado de três jornalistas da pesada: a editora do Jornal da Record Guta Nascimento (à esq.), a editora de Cultura da Record Telé Cardim (de Rosa) e a colunista do R7 Fabíola Reipert


Eu fecho uma matéria em minha antiga mesa


Telé Cardim anuncia novidades do Sindicato dos Jornalistas


Eu ao lado do editor de Blogs do R7, Diego Maia, amigo desde os tempos de Curso Abril de Jornalismo


O beijo carinhoso de Juliana Damasceno, da equipe de Blogs


O beijo também carinhoso na editora do Fala Brasil, Carla Prado


Eu com a editora-chefe do R7, Ligia Braslauskas, e a editora de home Gabriela Quintela


Eu e o estagiário da equipe de Famosos e TV Pedro Henrique Feitosa


A repórter de Famosos e TV Vanessa Sulina


O estagiário de Famosos e TV Pedro Henrique Feitosa


Ana Paula Padrão e Celso Freitas conversam com Guta Nascimento após gravarem a escalada do Jornal da Record


O comentarista Percival de Souza aguarda o começo do SP Record


O editor de Ciência e Tecnologia do R7, Felipe Maia


Chefe de produção do Fala Brasil, Claudia Liz faz pose


Produtores do SP Record, Thiago Ermano e Sheila Fernandes não param


Compenetrado, o repórter do Fala Brasil Romeu Piccoli fecha mais um texto


Vista geral da redação: sempre em polvorosa

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Turminha no R7


Um registro na redação do R7 para a posteridade. Da esq. para a dir.: o estagiário Pedro Henrique Feitosa, o repórter Miguel Arcanjo Prado, a colunista Fabíola Reipert, a repórter Vanessa Sulina e o estagiário Renan Truffi. Foto por Daia Oliver.

Fabíola Reipert e Miguel Arcanjo Prado


Taí Fabíola Reipert e eu na festa de estreia do Aprendiz Universitário, no Café de la Musique, em São Paulo. O clique foi feito pelo excelente fotógrafo e parceirão Edu Moraes.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Tietagem no Festival de Curitiba

Como repórter do jornalismo cultural, tenho pavor de quem sai por aí dando faniquito e tirando foto com celebridade. Mas há exceções. No dia em que você entrevista um artista de verdade, como é Paulo José, não há Arcanjo que resista ao clique feito pelo parceiro Daniel Sorrentino, que comanda a fotografia do Festival de Curitiba. Leia também a entrevista que fiz com Paulo José e a filha dele Ana Kutner.

Festival de Curitiba 2010 - Dois destaques

Pelo terceiro ano consecutivo, cubro o maior evento teatral do Brasil, o Festival de Curitiba. É bom voltar à cidade, reencontrar amigos e conhecer novas turmas do teatro. Vou abrir com duas peças que vi e gostei. Veja, abaixo, por quê:



Nosso Estranho Amor
O quarto texto do dramaturgo mineiro João Valadares mostra que ele tem uma carreira grande pela frente. Sob ótima direção de Claudio Dias, João e Fabiana Loyola contam a história de um amor pouco convencional, mas nem por isso menos apaixonante. Apesar de os dois atores ainda deixarem transparecer a pouca experiência, isso não prejudica a interpretação e o encantamento que o texto provoca. O ponto alto da peça é a primeira cena de sexo do casal, coreografada para deixar o público de boca aberta. Diria que é uma das mais belas e poéticas cenas de sexo que já vi no teatro brasileiro. A trilha sonora executada ao vivo pelo violino de Luiza Anastácio e o violão de André Milagres, com canções de Caetano Veloso, também merece destaque.



Ghetto
O ator judeu Fábio Herford homenageia a história de sua família e de seu povo em uma peça sob direção abençoada do sempre talentoso Elias Andreato. No palco, vive um judeu polonês, último sobrevivente do gueto de Varsóvia, que conversa com Deus antes que a morte chegue. Mesmo diante do horror nazista, o personagem não perde sua fé, talvez o único sentimento que o aproxime da condição humana extirpada de seu povo pelo regime de Hitler. Ponto alto: a trilha sonora tocante executada ao piano pelo próprio ator. Também merece destaque os sapatos do cenário que representam os que foram aniquilados.

Foto Nosso Estranho Amor: Ernesto Vasconcelos/Clix/Divulgação
Foto Ghetto: Kelly Knevels/Clix/Divulgação

domingo, 7 de março de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 164

Como são bons os clássicos



Por Miguel Arcanjo Prado*


Toninho, meu professor de literatura no ensino médio na Escola Estadual Santos Dumont, em Belo Horizonte, costumava dizer, cheio de razão e pompa, que deveríamos gastar nossa adolescência lendo os clássicos. Assim, não faríamos feio na vida. Jamais duvidei dele.

Desde que aprendi a ler, e isso foi, se não me engano, aos cinco anos, ensinado por Nina, minha mãe formada no magistério, os livros me acompanham. Lembro-me que, na primeira série primária, na Escola Estadual Geraldina Ana Gomes, era sempre uma festa quando a “tia” Ana Cardoso levava a turma para visitar a biblioteca gerida por “tia” Vera.

Era um mundo para se perder e não mais se encontrar. Gastava vários minutos entre as estantes baixinhas para escolher qual seria o livro que tomaria emprestado naquela semana. E, ao chegar em casa, era uma festa. Lia e relia as histórias para minha mãe – que fazia questão de incentivar esses momentos – e para meus dois irmãos, Rafael e Gabriel, mais novos três e cinco anos, respectivamente. De alguns livros, até fazíamos pequenas e inesquecíveis montagens teatrais.

O tempo foi passando e jamais consegui me desvencilhar das bibliotecas. Na oitava série, causei espanto da bibliotecária, quando esta percebeu, lá para outubro, que minha ficha anual já continha 61 livros emprestados. Diante daquele absurdo no qual custou acreditar ser verdade, já acostumada ao comportamento mediano dos alunos da rede pública, logo me tornei uma espécie de “filho postiço” da mesma. Tratava-me com muito carinho, sempre me informando em primeira mão as novas aquisições. Seus olhos brilhavam a cada empréstimo feito.

Jorge, Zélia, Graciliano, Leminski, Guimarães, Dostoievski, Rachel, Agatha, Machado, Lima... Eles jamais me impediram de aprender a andar de bicicleta, brincar de rouba bandeira ou queimada na rua nem de descer a avenida Salamanca de patins, para desespero de minha mãe. Tampouco de ver a Xuxa tomar seu rico café da manhã ou acompanhar as histórias do Rá-Tim-Bum. Muito pelo contrário, os livros fizeram minha visão de tudo isso ser bem mais interessante.

Em São Paulo, onde vivo há três anos, uma das minhas primeiras providências foi me matricular no sistema de bibliotecas públicas municipais. Coisa da qual me orgulho é ter o tal cartão bem preenchido.

No último sábado, tive uma surpresa grandiosa: ao chegar na casa de minha amiga Gabriela Quintela, fui surpreendido com os dois tomos novinhos de “Crime & Castigo”. Sabedora da minha tristeza e vergonha confessada por ainda não ter lido o tal clássico, ela resolveu comprá-lo numa banca e me presentear. Ainda sob emoção, disse a ela, sem sombra de dúvida: “Você me deu um dos melhores presentes que alguém poderia me dar”.

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Esta semana foi de melancolia nos palcos. Na última sexta, foi dia de, mais uma vez ao lado de Gabriela Quintela, ver Ney Matogrosso cantar como ninguém o amor em “Beijo Bandido”, no Citibank Hall, em São Paulo. Um dia antes, tinha sido a vez da grande Norma Bengell subir ao palco do teatro SESC Ipiranga, também em São Paulo, para estrear o difícil espetáculo “Dias Felizes”, de Samuel Beckett, sob direção de Emílio di Biasi, que começou carreira ao lado da mesma Norma, em 1968, dirigindo a lendária peça “Cordélia Brasil”, também primeiro texto de Antônio Bivar. Falei com os três.

Norma me disse que havia “fica muito nervosa” com a estreia, mas que estava feliz. Sua frustração era só não poder ver o espetáculo, o que ela considera “uma pena”. Ela disse conseguir ver “otimismo e alegria, dentro do possível” na personagem que se esvai aos poucos. Perguntei a Biasi o porquê de uma peça tão pesada neste momento na vida de Norma. Resoluto, me disse que não queria “Norma fazendo uma comediazinha”, mas algo grande, um Beckett.

Ao lado, o sábio Bivar entrou na conversa, acompanhada o tempo todo com afinco pela atrevida e querida mestre do jornalismo cultural Telé Cardim, e resumiu tudo citando o grande Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: “Para as senhorinhas burguesas, Beckett é mais pesado do que vatapá para recém nascido”.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e, por imposição do destino, acaba de comprar o livro “Madame Bovary”, obra que pretende terminar de ler nos próximos dias.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Thomas Mann ou Tieta?


Apesar da insistência de meu primo Marcelo Junio Gonçalves, conhecedor das profundezas da língua alemã, para que eu leia Thomas Mann, não resisti em começar a leitura de algo bem mais brasileiro, sobretudo após passar o Carnaval em Salvador: Tieta do Agreste, do grande Jorge Amado. Prometo a Marcelo que, assim que Tieta acabar, Morte em Veneza terá sua vez. E, para relembrar um pouquinho, não custa nada ver um pedacinho da adaptação do romance para a TV, feita magistralmente pelo trio Aguinaldo Silva, Ana Maria Mortetzsohn e Ricardo Linhares, novela que marcou minha infância e figura entre as melhores que vi na vida:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Carnaval de Salvador resume o Brasil



Por Miguel Arcanjo Prado, enviado do R7 a Salvador

Seja na beleza do tapete branco formado pelos integrantes do tradicional bloco afro Filhos de Gandhy, nos movimentos suntuosos da Deusa do Ébano do Ilê Ayê ou na sensualidade dos cantores, que vão de Claudia Leitte e Ivete Sangalo a Léo do Parangolé, o Carnaval da Bahia mostrou mais uma vez a sua força nos últimos seis dias.

E ela vem, sobretudo, da população baiana, que se enfeitou e se animou para brincar na maior festa popular do mundo e receber com carinho os 500 mil turistas que chegaram à cidade.

Mas o Carnaval não é só alegria. É também palco de problemas persistentes como a violência entre foliões e os furtos que atormentam tantos outros. Nos últimos seis dias de festa, a reportagem do R7 presenciou roubos, assaltos e agressões nos circuitos.

Mas nem o mais truculento folião conseguiu tirar a beleza da festa, que se traduziu na música diante da qual é impossível ser indiferente.

Terra de gênios como João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a Bahia ainda canta o Brasil. O pagode provocante do Rebolation, do Parangolé, a batida eletrônica de As Máscaras, de Claudia Leitte, o suingue de Na Base do Beijo, de Ivete Sangalo, o bom humor do Vale Night, do Asa de Águia, a inteligência de Andarilho Encantado, de Daniela Mercury, ou o sincretismo de Saudação ao Caboclo, de Margareth Menezes, traduzem a diversidade cultural do povo brasileiro.



A festa não conquistou só estrangeiros, mas também os próprios baianos. Prova disso foi ver o brilho nos olhos das pessoas na arquibancada do Campo Grande diante dos beijos jogados por Claudia Leitte do alto de seu moderno trio. A cantora, ao pegar um colar jogado por um integrante dos Filhos de Ganhdy, resumiu a mistura do axé.

A folia foi de estreia para a estudante Naiara Garcia, de 22 anos, que nunca havia visto o Carnaval de sua terra de perto.

- Só tinha visto pela televisão. Pessoalmente, é muito mais impactante e bem mais divertido. Fiquei impressionada com Ivete levantando o povo.

Outro que se empolgou na festa foi o empresário soteropolitano Augusto Guimarães, de 25 anos.

- A festa da Barra é mais fresca do que no Campo Grande, por conta da praia. O que me arrepia sempre é a passagem do Chiclete [com Banana]. Eles têm um astral único, que me faz arrepiar todos os anos.

O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da Ciel Empreendimentos Artísticos.

Abaixo, 2 vídeos de Claudinha Leitte agitando o Campo Grande. Quem for esperto, vai me achar no alto do carro. Beijos!



domingo, 7 de fevereiro de 2010

Crítica: Por que Ivete foi melhor do que Beyoncé




Por Miguel Arcanjo Prado

Após passar pelo martírio da chuva aterrorizante do fim de cada tarde da cidade, o público paulistano esperava pela dupla Ivete Sangalo e Beyoncé Knowles. A última, norte-americana, era a estrela da noite, ficando para a musa de Salvador a tarefa de abrir o show.

De roupas e pés encharcados e em uma pista de estádio inundada, o que mostra a falta ainda gritante de locais apropriados para grandes shows na maior metrópole do Brasil, o povo aguardava ansioso.

Ivete foi mais do que pontual. Entrou no palco do estádio do Morumbi dez minutos antes das 20h, horário previsto para ela começar. E não se fez de rogada. Em três segundos, já tinha o público de 60 mil pessoas sob suas mãos, hipnotizados por seu já conhecido excesso de carisma.

Além de sacudir a massa com seu repertório na boca do povo – que foi aberto por Na Base do Beijo, sua canção de Carnaval já cantada de forma uníssona –, Ivete falou até não poder mais.

Contou que havia se tornado amiga de infância de Beyoncé e que era capaz de lembrar das duas crianças em Juazeiro, sua cidade natal na Bahia, esmiuçou sua aventura para chegar ao estádio, que teve parte do trajeto no helicóptero e parte no carro, por conta do temporal.

Ao anunciar que iria embora, antes de cantar País Tropical, Ivete foi ovacionada. Ao sair, o povo gritava órfão por seu nome.

Beyoncé só entrou às 22h20 para fazer seu show de duas horas. Atrasada, pegou um público já fatigado por Ivete e pela chuva. Mesmo assim provocou reação à altura de seu atual status de maior diva da música pop.

Com passos que parecem ter sido coreografados por uma experiente travesti, ela mostrou todo o excesso de poder da fêmea que caracteriza seu estilo. Tal postura provoca uma catarse em seu público composto por uma reinante maioria de jovens gays, que parecem se projetar naquela Barbie Negra, como definiu muito bem minha amiga Gabriela Quintela, que viu o show a meu lado. Tudo o que aqueles meninos queriam era ter aquele corpo, aquela peruca e aquele atrevimento que Beyoncé demonstra diante de seus homens de barriga tanquinho.

Beyoncé fez um show correto e excessivamente coreografado. Há quase nenhum espaço para improviso ou criatividade. Tudo é milimetricamente calculado e dirigido para produzir o resultado esperado: fazer dela uma diva. E ela canta como ninguém, apesar de inserir o playback em alguns momentos do show.

Mas como Ivete fez questão de dizer, logo após tomar um tombo no palco e se comparar a Madonna e Beyoncé, que também já tiveram quedas espetaculares, o Brasil tem sua diva também. E esta não fica a dever em nada para a garotinha negra do Texas.

Na volta do estádio, num ônibus rumo ao centro, escutei uma passageira comentar sem nenhuma vergonha: “A Beyoncé arrasou, mas eu gostei muito mais do show da Ivete”. Verdade dita.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Crítica: Maternidades - Uma atriz que vale por quatro



Por Miguel Arcanjo Prado

Amanda Acosta já mostrou que era atriz do primeiro time de sua geração quando protagonizou com esmero o musical "My Fair Lady", em 2007. Como a jovem Elisa Doolitle, deixou a plateia completamente apaixonada por ela. Mas não se prendeu ao passado e conseguiu ir muito mais além.

Em Maternidades, texto escrito sob medida por seu marido, o ator, médico e dramaturgo André Fusko, ela surge desprovida das pirotecnias cenográficas e coreográficas dos musicais e sem poder exercitar seu belo canto. Mas não faz diferença alguma. Muito pelo contrário. Ela demonstra talento ainda maior nesta montagem focada em seu trabalho de atriz.

No diminuto palco do Espaço dos Satyros Um, na praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo paulistano, Amanda se agiganta na pele de quatro diferentes mulheres que falam da aventura da maternidade, apesar do tema ser apenas pano de fundo para observações profundas acerca da vida que vivemos: uma senhora mãe caretona, uma adolescente fissurada nessa história de ser mãe um dia, uma trintona que sonha em um dia ter coragem para deixar os instintos aflorarem e uma idosa que fez na vida tudo aquilo que teve vontade.

A cada uma delas, Amanda dá o tom certo, fazendo com que acreditemos que cada uma delas existe realmente. O trabalho de atriz é tão profundo que a impressão que se tem é de ver quatro diferentes Amandas no palco.

Mordaz, o quinto texto de Fusko continua com aquele seu sarcasmo e olhar inconformado para a sociedade convencional e mediocrizante. Se o texto é bom, a atriz o faz soar melhor ainda. A direção, também assinada por Fusko, acerta no simplismo do figurino e no adereço que serve de calço para o surgimento daquelas mulheres. Outra solução brilhante é a pequenina e frenética luz na mão da trintona que deseja ser uma tigresa. Assusta e hipnotiza. A trilha sonora original de Kalau também dá a base necessária nos momentos certos.

Em sua primeira aventura solo no palco, Amanda dá conta de tudo com a certeza que só as divas têm. Mostra que veio para ficar e fazer história nesta aventura chamada teatro brasileiro. Imperdível!

Maternidades
Sextas e sábados, 19h, no Espaço dos Satyros Um (pça. Roosevelt, 214, Consolação, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345; 70 lugares; R$ 20; 10 anos, até 27/3).

Foto: André Fusko e Amanda Acosta por Vivian Abravanel

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Crítica: Play - Muita mentira e pouco sexo



Por Miguel Arcanjo Prado

Sabe aquele poema Quadrilha, do Drummond, que é uma verdadeira suruba classuda? Pois é. Ao ver a montagem Play, em cartaz no teatro Nair Bello, em São Paulo, ela me veio à mente.

É que o texto de Rodrigo Nogueira dirigido por Ivan Sugahara conta a história de um casal que vive um temperamento sexual menos que morno, interpretado pela classuda Daniela Galli e o próprio Nogueira. E quem movimenta o marasmo é a irmã da mulher, interpretada por uma espevitada Maria Maya, e o melhor amigo de faculdade do marido, vivido pelo insosso Sérgio Marone. Claro que tudo isso com direito a muitos chifres.

Não fosse pelo trabalho bem abaixo da linha aceitável de uma boa interpretação feito por Marone, daria até para dizer que o elenco vai bem. O segredo é não prestar muita atenção nele e se concentrar nos outros três. Aí, sim, a peça diverte.

Há boas interações multimídias, com exibições de vídeos com depoimentos femininos em um telão - em um deles surge a mãe de Maria Maya, a diretora Cininha de Paula. Como ela é a cara de Maya (ou seria o contrário?) a gente mais fica comparando as duas do que presta atenção no que ela diz. Mas voltemos ao elenco que vale a pena.

Galli mostra competência no domínio das cenas dramáticas e é quem mais se destaca. Maya também não vai mal. Dá o tom certo de vagabundagem que sua personagem pede. O mesmo vale para Nogueira, que faz aquele carioca safado e descarado, que lembra algum texto de Nelson Rodrigues - só que sem os dramas.

Play não é lá uma peça que se diga: que supimpa! Digamos apenas que diverte na medida certa para um fim de noite.

A peça Play está em cartaz até 24 de fevereiro todas as terças e quartas, às 21h, no teatro Nair Bello (r. Frei Caneca, 569, 3º andar, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3472-2414; 14 anos). O ingresso custa R$ 40.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Crítica: In On It - Quando ir ao teatro vale a pena



Por Miguel Arcanjo Prado

Ver uma peça de teatro muitas vezes é um martírio para quem sai de casa em busca de alguma diversão. Seja por textos medonhos, atores medíocres ou direção estapafúrdia, muitas são as vezes em que o público volta para casa com a sensação de que desperdiçou seu rico dinheirinho com um ingresso. Este não é o caso da peça In On It, em cartaz no teatro Faap, em Higienópolis.

Nem o desconforto da sala num dos bairros mais chiques da capital paulista, com cadeiras amontoadas em espaço mínimo, daquelas que prendem as pernas do espectador, consegue ser capaz de tirar o brilho da montagem que nada mais é do que um exercício cênico perfeito.

De nome confuso para o brasileiro médio (o título, em inglês, significa algo como "dentro"), a peça tem direção caprichada e sem nenhum excesso assinada por Enrique Diaz. Muito pelo contrário, ele apenas colocou os atores Fernando Eiras e Emilio de Mello em um palco, munidos de duas cadeiras e luz sem arroubo algum. E dá certo.

O texto do canadense Daniel MacIvor, cheio de metalinguagens, surge forte durante os dez personagens interpretados pela dupla de talento incomensurável. Por uma hora de espetáculo o público é presenteado com um maravilhoso jogo cênico no qual o que realmente importa não são malabarismos teatrais, mas, sim, um grandiloquente trabalho de ator. No caso, o trabalho de uma dupla tarimbada de atores. Imperdível!

Onde: Teatro Faap (r. Alagoas, 903, Higienópolis, 0/xx/11 3662-7233. Quando: 6ª, 21h30; sáb., 21h; e dom., 18h. 60 min. 16 anos. Quanto: R$ 40 (sáb., R$ 50). Até 28/3.

Para conferir o blog da peça, clique aqui.