domingo, 12 de fevereiro de 2012

Coluna do Miguel Arcanjo nº 180



Você já foi à Bahia, nega? Então, não vá!

Por Miguel Arcanjo Prado*


Se Jorge Amado e Dorival Caymmi ainda estivessem vivos, provavelmente morreriam de desgosto ao ver o que a Bahia se tornou. E não estou falando da comentada greve da PM baiana. Antes o problema fosse um grupo de policiais em motim.

Em 2000, ano anterior ao da morte do escritor, Salvador registrou 315 homicídios, o que já deveria ser um absurdo se comparado aos tempos dos Capitães da Areia. Mas tudo ainda poderia piorar. E muito. Uma década depois, 2010 fechou a conta com 1.484 assassinatos na capital baiana. Um crescimento para o governador Jaques Wagner morrer de vergonha.

Ainda menino, lendo os livros de Jorge e escutando as músicas de Caymmi, aprendi que a Bahia é terra de gente cordial e de paz. E pude ver isso na prática. Desde os tempos de férias com minha avó Oneida no Grande Hotel da Barra, nos anos 80, convivi de perto com o povo baiano.

Adorava, menino, passear com na companhia materna pelo Mercado Modelo, andar com minhas tias pelas ruas do Pelô, ainda caindo aos pedaços, e comer batata frita com queijo no Terreiro de Jesus. Mas o caos estava por vir.

E ele veio nos últimos 20 anos, com o crescimento desordenado e o acirramento das desigualdades sociais e raciais, que colocam brancos e ricos de um lado e negros e pobres de outro. Triste cenário baiano atual.

Volto a Jorge Amado, que, na boca de seu personagem mulato Pedro Archanjo, no livro Tenda dos Milagres, defendia a miscigenação como única possibilidade de salvar a Bahia da segregação racial.

Passei os últimos três Carnavais em Salvador. E a lembrança mais forte que ficou na minha mente era caminhar pelas ruas, povoada de gente pobre e negra, vendendo cervejas, churrasquinhos e ou qualquer coisa que possibilitasse defender um dinheirinho em cima dos turistas, e, ao entrar nos camarotes das estrelas baianas, ver, de repente, todo mundo ficar branco – a não ser quem servia e eu.

Ainda criança, eu me lembro de frequentar os ensaios do Olodum, no Pelourinho, e cantar, a plenos pulmões, letras políticas do grupo, como Povo Comum Pensar e Protesto Olodum, que iam fundo na cultura e nos problemas baianos. No último Carnaval, tive vergonha ao ver a mesma Bahia, pobre, violentada e sem dentes, do lado de fora da corda dos trios, fantasiada de Superman e Mulher Maravilha e se autodenominando “Salvador City”. Cômico, se não fosse tão triste.

Pobre Jorge. Pobre Caymmi. Pobre Bahia.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mineiro de alma baiana, mas está feliz por não passar o próximo Carnaval em Salvador.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um Papai Noel chamado Telé Cardim movimenta o jornalismo da Record

Quem disse que nas redações da Record e do R7 não tem Papai Noel?

Tem, sim, senhor!

E ele atende pelo nome de Telé Cardim, a musa maior dos festivais da Record e também de nossos corações.

Diz aí, Telé não é tudo?

Ah, as fotos são de Daia Oliver.



domingo, 6 de novembro de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 179



Na confusão da USP, todos estão errados

Por Miguel Arcanjo Prado*

Três estudantes fumam maconha no campus da USP. Policias da patrulha incorporam o Capitão Nascimento. Bora todo mundo para a delegacia. Está gerada a grande confusão.

A polêmica na Universidade de São Paulo que toma os noticiários não é tão simples quanto se pinta. De um lado, estudantes são manipulados por partidos que nem sabem o que querem. Do outro, a direita careta aproveita a situação para demonizar o pensamento político progressista.

Está tudo errado, é a única conclusão à qual posso chegar.

Tudo isso me faz lembrar uma manifestação da qual participei em meu primeiro ano de campus, na UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais, onde estudei Geografia e, depois, Comunicação Social.

Mal havia começado as aulas, e professores, alunos e funcionários, entraram em uma greve que durou todo um semestre. Todos contra o sucateamento do ensino universitário capitaneado pelo governo Fernando Henrique Cardoso. E estavam certos. Afinal, tinha aula de filosofia na mesma cadeira em que o escritor Guimarães Rosa havia se sentado. Era charmoso, mas estava mesmo tudo caindo aos pedaços.

Uma assembleia democrática decidiu que marcharíamos nas duas avenidas que circundam o campus Pampulha, de forma pacífica e com cartazes que diziam “Fora FHC e o FMI”. Aos 18 anos, e ainda começando a vida univesitária na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, decidi, com meu primo e colega de turma Guilherme de Araújo, seguir a passeata.

Qual não foi nossa surpresa quando, logo que viramos a esquina, vimos surgir um ônibus cheio de policias militares, que saíram jogando bombas de gás em todos nós. Logo, começaram a descer o pau na estudantada. Em pleno 2001. Em plena tarde de uma das principais avenidas de Belo Horizonte.

Sem resistência estudantil, policiais covardes escolhiam os mais fracos para ver o poder de seus cassetetes. Uma aluna de letras teve o braço quebrado.

Assustados, corremos de volta para o campus e fechamos o portão. A polícia, rangendo os dentes, ficou do lado de fora. Eles ainda não tinham a permissão de entrar ali. Quando as câmeras da Globo chegaram, os policias já haviam milagrosamente desaparecido.

Há um ódio histórico entre estudante e polícia. Afinal de contas, não é tão simples esquecer que, há pouco tempo, policiais invadiam salas de aulas e centros acadêmicos para levar alunos para a tortura nos porões da ditadura.

E policiais também não suportam os estudantes, que consideram filhinhos de papais privilegiados em poder estudar às custas do Estado, enquanto eles colocam suas vidas em risco para pegar bandidos em troco do salário medíocre que este mesmo Estado lhes paga.

E é dessa dicotomia que vem o confronto. O policial patrulheiro que passa as madrugadas na USP, no fundo, odeia o estudante que está por ali fumando maconha, para desanuviar a cabeça depois de uma tarde de estudos filosóficos. Por isso o prende, numa forma de demonstração de poder. E isso faz com que aquele estudante o odeie por usar o poder da Lei de uma forma tão bruta, injustificada e vingativa.

Estudante este que, por estar numa universidade pública – prova de sua reconhecida capacidade intelectual – se acha melhor que os demais. Favelados não fazem protestos pelo direito de fumar maconha. Ou, se fazem, ninguém escuta.

Mas penso que seria simples por demais embarcar no que faz a grande mídia e classificar os alunos que tomam o prédio da Reitoria da USP como “filhinhos de papai baderneiros”. E sair defendendo o cumprimento cego da Lei como uma Dona Carochinha viciada no Programa Silvio Santos e que reverbera o pensamento de extrema direita sem nem se dar conta. Mas não seria o correto, porque, afinal de contas, na confusão da USP, todos estão errados: universidade, policiais, estudantes e sociedade. Todos são por demais hipócritas e donos, cada um, de sua tão conveniente verdade.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e adora a inocência da letra da canção Povo Comum Pensar, do Olodum.

Foto de Rodrigo Paiva, do UOL

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 178


Caro leitor, não poderia deixar de publicar neste espaço um dos melhores textos que li nos últimos tempos. Verdadeiro, profundo, simples e triste, como a vida o é muitas vezes. Espero que você goste.

Pacha

Por Juan Manuel Tellategui*


Hoje faz frio. Provavelmente seja um dos dias mais frios que vivi aqui. Talvez, seja assim mesmo, como em forma de metáfora.

Há dias, me lembrei dele. De forma passageira, como quem recorda a alguém que não vê faz um tempo e este surge representado em forma de um pensamento fugaz. Talvez, me avisou um anjo, ou talvez ele mesmo veio me visitar.

Como às vezes gosto de fazer, coloquei o computador em um programa da televisão argentina, no qual levam especialistas que relativizam todos os temas cotidianos, tornando-os frívolos e banais.

Este era o caso de quem tinha TOC, e a psicóloga falava, explicava e exemplificava os diferentes tipos de obsessão que existem. Eu escutava, de fundo, enquanto ordenava roupas e esperava não encontrar-me em nenhum daqueles casos.

Para minha curiosidade, alguns tipos de colecionadores também são obsessivos, e o exemplo foi o de uma pessoa que transforma sua casa em um depósito de coleções a ponto de ficar difícil viver dentro dela.

A casa de Pacha, pensei. E pensei também em um monte de perguntas para mim mesmo: Será que a casa dele foi acumulando cada vez mais livros, revistas, móveis de madeira encontrados na rua, entulhados até o teto? Eles eram reciclados pelo marido da Elcira, a senhora que fazia a faxina da casa. E os figurinos teatrais? Muitos, cada um permanecia como se encerrasse dentro dele uma história do passado. E as garrafinhas? Tantas garrafinhas de coca-cola... Insumo grátis – ele dizia – para uma cenografia original, que se utiliza como recurso para o passar do tempo na obra. Como estará? Tanto tempo...

E continuei com minhas coisas e com o relato do programa de TV.

Hoje, um dia como os outros, frio por demais, abro uma janela do Google para fazer uma busca relacionada a meu trabalho.

O azar, o destino, uma página leva a outra, uma sucessão de informação, e tudo acontece rapidamente. Um texto sobre Pina Bausch, ah, e tem uma foto do espetáculo inspirado no Japão que vi em São Paulo. Alternativa Teatral, claro, todos estamos em Alternativa Teatral. Página 12, que boa notícia, não sabia que havia escrito para Página. Tampouco me surpreendeu. Recordo que as manhãs dos domingos ele ia comprar o jornal para lê-lo tomando mate e, às vezes, com facturas.

Recordo os cálidos domingos de inverno, com o sol entrando na perpendicular por essa janela alta para espantar o frio. Até que cheguei a uma carta em um blog.

A última vez que nos vimos foi na Feira do Livro. Faz um, dois anos, talvez. Encontramo-nos na calçada da avenida Sarmiento, enquanto escutávamos Caetano acústico, sozinho com um violão. A noite era tranquila na multidão, fazia calorzinho, era uma noite de verão agradável. Enquanto colocávamos na agenda de nossos novos celulares os nossos novos números de telefone, ele me contava que estava muito feliz, porque havia conseguido um estande com “a revista” na feira. Não me atrevia a indagar demais, porque ele dava como certo que eu sabia tudo sobre “a revista” e poderia entender uma pergunta daquelas como uma falta de interesse minha sobre seus projetos nos últimos anos. A revista. Fiquei entusiasmado ao vê-lo tão entusiasmado, tão cheio de projetos, como sempre, tão projetado. Sempre ocupado.

Recordo que um dia ele me disse: “...que é a vida, senão, um sem fim de buscar um sentido”. Para dar-lhe um sentido, e quando começa a perdê-lo, buscar outra coisa, e outra, e assim até sempre... Sendo assim um incansável buscador de vida.

Retumba faz muito tempo essa frase dentro de mim. Eu me apropriei dela como se fosse minha, porque ele a me presenteou em um dia que eu estava triste. Quanta simples sabedoria. Quanto amor. Porque só quem teve calo de dor pode compreender a dor alheia e, ainda assim, distanciar-se para uma palavra, uma frase que valha a pena. Esse também, creio, era um de seus sentidos, a generosa hospitalidade compassiva.

Assim foi que nos conhecemos também.

Recordo as reuniões que tive o privilégio de participar, onde se falava de estética, semiótica, formas, arte, formas expressivas, usos do correto discurso castelhano. Tudo está comigo, esse foi seu maior presente. Naquele então, ele me chamava de “criatura”, e eu gostava que ele me chamasse assim também.

Como tudo acontece coma velocidade do dia a dia, pensei em ir visitá-lo e levar-lhe um uísque de presente, talvez um vinho, como agradecimento. Entretanto, essa ideia parecia-me demasiado formal... E esperando... Não sei, uma ideia melhor, deixava pendente para, mais adiante, dar um presente a Pacha.

Foi em 25 de maio. Que fiz em 25 de maio? Ah, sim, foi um dia qualquer, somente que não foi feriado e fazia calor. Lembrei-me da tradicional mazamorra que faz minha avó aos 25 de maio e pensei se neste ano ela faria também. Ninguém da família gosta de mazamorra, mas eu gosto e neste ano descobri que também se chama canjica.

Tudo continua como sempre, a vida das pessoas não se detém, não devem deter-se, porque é assim.

O tempo é tão curto.

Não sei se interessaria a ele que alguém o chorasse. Creio que, uma vez, fazendo piada, até disse que preferiria que se fizesse uma festa e que todos terminassem bêbados. Provavelmente, hoje eu faça um brinde em sua memória, em silêncio, à distância. Provavelmente, enquanto ele tenha um sentido, vai permanecer sempre conosco, a família da vida.

Obrigado, Pacha, por tudo o que foi para mim, “te quiero mucho”.

*Juan Manuel Tellategui é um ator argentino.

domingo, 5 de junho de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 177

Quem é Ancelmo Gois?

Por Miguel Arcanjo Prado*


Para o colega Fabian Chacur

Vira e mexe me assusto com os novos tempos. E olha que eu só tenho 29 anos e ainda não deveria estar desse jeito. Mas não dá.

Ao mesmo tempo em que muitos bradam por aí que estamos na era mais avançada da comunicação e que a humanidade evoluiu não sei quantas léguas, vejo, por outro lado, uma marcha em prol de tornar o mundo cada dia mais careta.

Parece que muita gente não ficou feliz diante dos passos largos que demos nas últimas décadas, sobretudo nos costumes. É por essas e outras que vemos surgir histórias absurdas como a que catapultou Geisy Arruda ao estrelato.

Por exemplo, na aprovação da união estável para casais gays pela Justiça houve de tudo. Até o retrógrado deputado, cujo nome eu me recuso a citar para não ajudá-lo depois nas urnas, que disse que a medida ajudaria a aumentar a pedofilia. Tadinho, será que ninguém avisou para ele que, geralmente, pedófilos são os pais, irmãos, tios e padrastos de famílias oficialmente dentro do “formato cristão” que ele defende? É cada asneira que se ouve – e se publica – impunemente por aí...

A Avenida Paulista, ultimamente, está vivendo, a cada semana, seu momento maio de 1968. Um dia é marcha para defender a maconha, noutro, mulheres saem com cartazes em prol do direito de serem vadias e, ao fim, como não cansa de reclamar minha amiga fotógrafa Julia Chequer, a imprensa apanha da PM qualquer que seja o tema da marcha. Dia desses é bem capaz de um grupo de senhorinhas quatrocentonas saírem por aí para defender Deus, a família e a liberdade, igualzinho aquela de mais de 40 anos atrás.

Porque o direito de não ter metrô perto de casa elas já defenderam. Afinal de contas, conviver com “gente diferenciada” é tarefa complicadíssima. Eu que o diga. Afinal, faço isso desde que nasci.

PS.
Fala que não dá vontade de chorar quando você escuta, em uma redação, a inconsequente pergunta de estagiário do terceiro ano de jornalismo, em plena era Google: “Quem é Ancelmo Gois?”.

*Miguel Arcanjo Prado é um dos jornalista que ainda gosta de ler jornal.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Coluna do Miguel Arcanjo nº 176

Adeus, Zé

Por Miguel Arcanjo Prado*




José Alencar se foi. Parece difícil de acreditar. Mesmo diante de sua doença – o que poderia fazer alguns pensarem que seu fim era algo iminente –, seu recado sempre foi de vida. De dignidade.

Zé, como era chamado pelos amigos e pelo povo de Minas Gerais, terra que amou como poucos e foi espécie de porta-bandeira, com seu jeito amigo, hospitaleiro e conciliador, demonstrava uma fé inabalável a cada entrada ou saída do hospital.

Em meus primeiros passos no jornalismo, ainda estudante da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e estagiário de uma grande redação em Belo Horizonte em 2005, fui surpreendido pelo recado de meu editor, Paulo Valladares. Seria uma espécie de setorista de José Alencar.

Na realidade, isso significava que era de minha responsabilidade cobrir, diariamente, a agenda do vice-presidente e, claro, as novidades de seu estado de saúde, já então delicado.

Passei a falar diariamente com seu fiel assessor, Adriano Silva, que me passava as últimas do Zé. Até que um dia ele apareceu na emissora para uma entrevista. Encontrei-me com ele no corredor e contei que cobria sua agenda. Daquele jeito simples, ele me agradeceu e, quebrando todos os protocolos de um vice-presidente, me deu um abraço afetuoso.

É esta imagem que vou guardar do meu conterrâneo José Alencar. Homem que soube, como poucos, mostrar que é possível fazer política com dignidade. Sua vida foi exemplo de vitória, com a surpreendente trajetória de menino pobre de Muriaé, na zona da mata mineira, a empresário milionário e vice-presidente da nação.

Sem preconceitos, uniu-se ao candidato ex-operário, dando a ele a confiança do mercado da qual tanto necessitava. Zé foi generoso, humilde e sempre respeitoso com o presidente Lula, sem perder suas opiniões e convicções. Quem não se lembra de sua batalha contra os juros altos? Mas suas considerações eram feitas de forma a nunca faltar com o respeito.

Zé conquistou o amor do povo brasileiro ao mostrar, diariamente, que era apenas mais um deles. Homem simples, guerreiro, batalhador. Coisa rara de se ver. É por isso que sua partida dói tanto.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e tinha um grande carinho por seu conterrâneo José Alencar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 175



Papai Noel e uma ceia de Natal

Por Miguel Arcanjo Prado*


Foi Márcia La Marca, produtora da TV Globo Minas, quem me apresentou ao Papai Noel dos Correios. Marcinha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, sempre fazia questão de buscar as cartinhas escritas por crianças pobres endereçadas ao Papai Noel. Depois, levava o pacote à redação, onde distribuía uma a cada um dos jornalistas, incluindo aí os estagiários, categoria à qual eu pertencia nos Natais de 2005 e 2006.

Marcinha me ensinou a alegria imensa que é ir às lojas de brinquedos ou papelarias buscar presentes dos mais simples pedidos por aquelas letrinhas infantis cheias de fé e de esperança, mesmo diante de uma vida tão adversa.

Quatro anos já sem Marcinha no meu cotidiano, há duas semanas, fui postar alguns cartões de Natal na agência dos Correios da minha rua. E qual não foi minha surpresa ao ver, enorme, uma caixa de papelão cheia de cartinhas. Atrás da caixa, uma funcionária com aquele sorrisão igual ao da Marcinha, pedindo:

- Por que você não leva uma? A campanha só vai até depois de amanhã. E ainda tem muita cartinha aí perdida, sem ser adotada...

Logo quando entrei na agência, eu me encontrei com a faxineira do meu prédio, que estava saindo. Esperta, a atendente dos Correios notou nossos cumprimentos e a pergunta de Marlene se eu não queria que ela fosse lá em casa deixar o apartamento um brinco para o Natal. Tanto que mandou essa:

- Por que você não adota a cartinha do filho de sua funcionária? Ela colocou já faz alguns dias mas ninguém levou ainda... Ela vem aqui todo dia ver se alguém pegou e, hoje, terminou de sair tristinha, porque percebeu que a cartinha do filho dela ainda está aqui.

Mal disse essas palavras, enfiou a mão na caixa, retirando o trunfo:

- É esta aqui!

Na hora me veio à cabeça o sorriso de Marcinha. Não tive como não levar esta e mais outras três cartas, que dividi com meu primo Caio Silva e minha amiga Gabriela Quintela. Só sei que saí dos Correios me sentindo o ganhador do maior presente do mundo.

******

Noite de véspera de Natal e lá estava eu na redação do R7. Trabalhando sem parar. Com a família e o amor a algumas centenas de quilômetros de distância, não havia perspectiva de ceia ou de confraternização.

Até que o elétrico repórter Fernando Gazzaneo veio com o convite de última hora:

- Miguelito, terminei de falar com o João Varella [gaúcho e também repórter dos bons do R7]. Ele falou que a mãe dele veio de Guaíba visitá-lo, fez uma ceia enorme e está chamando dóis para ir à sua casa assim que sairmos daqui. Vamos?

Simples assim. Logo que deu nosso horário de saída, às 23h, rumamos às pressas para a rua Eduardo Prado, nos Campos Elíseos, onde fica o apartamento do João, com medo de não chegarmos a tempo da meia-noite. Mas deu tudo certo.

Conhecemos Patrícia Varella, parecida mais uma irmã do que mãe do João. Professora de educação física e dançarina de mão cheia. Uma gaúcha da pá virada que foi várias vezes na fila na qual Deus distribuiu o carisma. Feliz, sorridente, simples e acolhedora. Fez-me sentir em casa, ao lado de Fernando, dela e de seu dois filhos, João e Gibran - este vindo de Curitiba também para o Natal.

Foi assim que descobri, mais uma vez, que a beleza do Natal é feita de gestos simples e inesquecíveis.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e deseja a todos um 2011 cheio de saúde, paz e Deus no coração.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 174

A alegria americana e a tristeza carioca

Por Miguel Arcanjo Prado*




Depois de quase dez anos afastado da elite do futebol nacional, o América Mineiro conquistou o direito de voltar à série A do Campeonato Brasileiro, no último sábado (27), ao empatar com o Ponte Preta. Fiquei contentíssimo.

Não, caro leitor. Não sou americano. Sou galo, torcedor do Atlético-MG, estado esportivo que também define todos os outros membros da minha família quando o assunto é bola no campo. Mas, como bom atleticano, na mesma medida em que
odeio o Cruzeiro, tenho aquele carinho especial pelo Coelho.

Quando se fala em América, a imagem que vem em minha mente é a do Tio Jaci, típico torcedor americano, morador do tradicional bairro do Esplanada, na zona leste belo-horizontina, nos arredores do estádio do Independência, a casa de seu time.

Sempre com seu radinho a pilha por perto, Tio Jaci acompanha cada centímetro da trajetória de sua equipe desde que me entendo por gente.

Nas férias da infância e adolescência, que adorava passar em sua casa, com Tia Rose e os primos Mateus e Moisés, o América Mineiro sempre era a pauta das conversas com ele. Tio Jaci sabia tudo. As contratações, as broncas do técnico na equipe, a
escalação para o próximo jogo. Eu, apesar de não ser muito afoito em temas futebolísticos, sempre dava trela,encantado com o encanto que aquele time provocava nele.

Tenho certeza que hoje, com o América-MG na elite do futebol nacional, Tio Jaci está lá na casa dele todo orgulhoso e feliz.

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O horror que se viu nos últimos dias no Rio entristece,choca, comove, provoca, desespera. Desespera porque é difícil ver luz no fim do túnel desta cidade com bandidos cruéis encastelados não só nos altos dos morros como também nos altos gabinetes do Estado.

Apesar da euforia provocada por tanques de guerra que deixaram traficantes acuados, ainda é difícil vislumbrar jeito para o Rio. Porque sempre haverá consumidores de drogas. E gente que lucrará com a venda ilegal dela à população.

É por demais utópico dizer que o consumo deveria acabar como estratégia de minar a força do tráfico, tirando dele o dinheiro dos playboyzinhos e patricinhas da zona sul e suas festinhas por lá e na Lapa.

A verdade é que as coisas não são tão simples assim. É por isso que, mesmo com o Alemão caído, a gente ainda fica com medo e se desespera.

*Miguel Arcanjo Prado é um jornalista mineiro de jeito carioca.

sábado, 6 de novembro de 2010

Filha de nordestinos que ama o Brasil sem fronteiras



Por Adriana Macedo*

Nasci em São Paulo, como milhões de paulistanos, apenas pelo fato de meus pais, trabalhadores rurais no sertão cearence, não encontrarem naquela época condições mínimas de trabalho e renda para manterem suas famílias com dignidade.
Para cá vieram ainda na década de 60, mais precisamente em 1968, pleno ano da ditadura pesada, do AI-5.

Lembro de que minha casa era sempre cheia de parentes. Quem já tinha casa recebia os outros, até que esses se estabilizassem e pudessem garantir o seu teto. Eram tempos difíceis, mas de muita solidariedade e muito, muito trabalho.

Meu pai aqui aprendeu o ofício de marceneiro, no qual trabalhou durante toda a sua vida. Levou marmita, pegou ônibus lotado, acordou às 5h da manhã, respirou muito pó de serragem e ouviu muito barulho alto de máquina, durante 30 anos de trabalho.

Me recordo com muito carinho da rotina diária de minha mãe, olhando-o descer do ônibus às 18h em ponto e indo colocar sua janta na mesa, para assim que ele entrasse, a comidinha estivesse lá, quentinha, para quem vinha faminto de um dia inteiro de trabalho pesado. Aquela comida simples tinha gosto de amor, de afeto, de cuidado...

E foi nessa luta, que Francisco mandou os três filhos para a faculdade (dois deles para a faculdade pública), o que sempre foi sua grande meta de vida.

Lá no bairro da Freguesia do Ó, eu nunca tinha sentido o preconceito, pois a grande maioria era formada por nordestinos, ou imigrantes mineiros, nortistas. Mas, conforme fui crescendo e adentrando a outras regiões da cidade, ouvi muitas barbaridades, muitas agressões, muitas discriminações que não entendia e com as quais me revoltava. Já briguei muito defendendo os nordestinos, quem me conhece sabe como eu era mais combativa, revoltada e até agressiva.

Hoje, vejo esses atos fascistas, xenofóbicos, preconceituosos e criminosos (divulgados no Twitter contra os nordestinos, em virtude da vitória da candidata Dilma Rousseff para presidente), vindo de pessoas jovens, que têm formação e informação, e me dá uma profunda tristeza, uma sensação de que não estamos evoluindo enquanto nação, enquanto cidadãos, enquanto seres humanos.

Que tipo de valores esses jovens estão recebendo em casa para disseminar tanto ódio gratuito, tanta barbaridade, tanta violência?

Eu sempre defendi um Brasil sem fronteiras, um mundo sem fronteiras. As cidades, estados, regiões, países são apenas divisões políticas e administrativas, a Terra é inteira, única, completa.

Ao mesmo tempo, amo e admiro as diferenças. Que lindo país temos, com tantas culturas, tantos sotaques, como adoro o "oxente" baiano, o sotaque cheio de “s” do carioca, os “uais” mineiros... Aliás, também repugno essa rixa estúpida entre paulistas e cariocas. Sou paulistana e amo o Rio de Janeiro.

Como é gostoso viajar e ouvir diferentes formas de pronúncia, comer comidas diferentes. Como aprendemos como viviam os europeus quando vamos ao sul, e as culturas africanas na Bahia. E a variedade de cores de pele, olhos, cabelos, como é rico e belo.

Que triste seria se todos tivéssemos a mesma aparência, o mesmo sotaque, o mesmo modo de pensar... Seríamos como robôs, cópias clonadas, máquinas. Viva a diferença! E é respeitando as diferenças que percebemos que, na essência, somos todos realmente iguais!

*Adriana Macedo é jornalista.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 173


Ilustração: Loredano

O senhor vai votar na Dilma, né?

Por Miguel Arcanjo Prado*

Nesta sexta-feira, cheguei morto da redação em casa, gripado, cansado. Meu porteiro me aguardava em frente ao elevador com um sorriso todo simpático no rosto.

Logo pensei: aí vem piadinha pela frente, já que ele tem um humor que nem um tsunami consegue abalar. E qual não foi a surpresa quando ele vaticinou, num tom todo curioso:

- O senhor vai votar na Dilma no domingo, né?

Resolvi jogar pesado e não dei a certeza que ele tanto queria. Contestei com outra pergunta:

- Por quê?

Logo ele me pôs a explicar, num tom professoral.

- Porque ela vai continuar tudo o que o Lula fez pela gente, né? Se o outro ganha eu não boto fé... Muda tudo pra pior.

Fiz-me de rogado e quis saber qual seria esse tão aclamado feito do tal do Lula por todos nós. Ele continuou, mais empolgado e confiante.

- O Lula pagou toda a nossa dívida. Porque antes só queriam ir lá no estrangeiro e pedir emprestado para colocar tudo no bolso. O Lula, não. Ele pagou tudo. A gente agora não deve nada a ninguém.

Continuei dando corda. Seu João respirou fundo e prosseguiu o discurso.

- Agora a gente tem emprego, né. Eu mesmo, já fiquei muito na fila do desemprego e sei como é. E os pobres estão todinhos de barriga cheia. Antes era aquela fome, a gente não conseguia comprar biscoito e iogurte pros meninos. Agora dá para comprar.

Resolvi bancar o indignado e disse que, apesar disso tudo, ainda faltava melhorar muita coisa. Para minha surpresa, seu João concordou.

- Sim, falta muita coisa. Mas o Lula já deixou tudo no ponto para ela fazer. Agora, se o outro ganha, eu não sei não...

Ao ver que o elevador chegava no térreo, ele lembrou-se de satisfazer a sua curiosidade inicial.

- Mas o senhor, “seu” Miguel, vai votar na Dilma domingo, né?

Resolvi terminar logo com aquele sofrimento, até porque estava louco para subir, tomar um banho, comer e me atirar no sofá da sala para ver o debate da Globo debaixo das cobertas. Enquanto entrava no elevador, respondi:

- Vou, sim, seu João. Vou votar na Dilma. E sabe por quê? Porque eu assino embaixo em tudo o que o senhor disse.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e fica feliz quando descobre que pessoas a quem admira têm uma visão de mundo parecida com a dele.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Coluna do Miguel Arcanjo nº 172



A simplicidade da felicidade

Por Miguel Arcanjo Prado*

A felicidade é simples como a pluma que o vento leva solta pelo ar, já dizia o poetinha que todos nós amamos, Vinicius de Moraes. Hoje, por exemplo, ela se fez diante dos meus olhos no menino que foi trabalhar com seu pai, motorista de ônibus na linha que liga Buenos Aires a Quilmes, município nos arredores, nesta segunda-feira de feriado argentino.

Feliz, a criança admirava seu progenitor com um olhar expressivo que tudo já dizia. Pequenino, abraçava as pernas de seu pai, concentrado em conduzir o veículo sem perder, contudo, a ternura daquele gesto, homem de tantas responsabilidades e dono de uma profissão que enchia de encanto os olhos daquele menino.

Seu pai era o responsável por conduzir toda aquela gente, cansada e espremida, para seus – poucos e, por isso, tão importantes – minutos de felicidade e paz no restante daquele dia regido pelo sol majestoso que se exibia lá fora pela janela.

A simples saída de Buenos Aires para a pacata Quilmes explicita o que é tão necessário e que, muitas vezes, deixamos de lado: o parar simplesmente para refletir a quanto anda nossa cota de felicidade. Muitas vezes, em nome de muita coisa que vamos esquecer logo depois, deixamos de lado a busca pelo sorriso farto e o bem estar.

Ser feliz é apenas estar em paz. De bem consigo mesmo e com o que há ao seu redor. Se não é possível mudar esse mundo que muitas vezes se pinta cheio de gente feia, careta, direitista e idiota, talvez basta que ignoremos essa turma que não vale a pena e abramos nossos olhos para aquelas pessoas que nos transmitem coisas boas – pode parecer mentira, mas elas existem, sim. Está bem, sei que não são muitas, mas as poucas que restam muitas vezes cruzam nossos caminhos.

E, para ser certeiro nesses momentos preciosos, é preciso estar atento e forte, como na canção do Caetano, sem tempo para temer a morte. É preciso criar o tempo para a vida – de fato, a que vale a pena. Para curtir a simplicidade que a traduz. Porque no final, é o simples que vai ficar. Coisas como um almoço de feriado feito com carinho, o silêncio de uma leitura de jornal compartida, a escolha da boa música que encherá o ambiente de alegria, aquele olhar cheio de silêncio e de significado junto às mãos entrelaçadas sob o sol que atesta que, sim, é possível ser feliz.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e é um homem feliz.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Oscar Niemeyer, la mirada incansable


André Luiz Mello/File

Tras superar con holgura el siglo de vida y casarse con una mujer 40 años menor, el ícono del urbanismo moderno continúa trabajando y no duda en cuestionar el estado actual de una de sus mayores intervenciones: Brasilia

La Nación - Por Sebastián Montalvo / El Mercurio / GDA
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Alos 102 años, el legendario arquitecto brasileño reflexiona sobre la proximidad de la muerte: "Espero que me encuentre con serenidad". Pero, fundamentalmente, desde su casa en Río de Janeiro de lo que habla es del cincuentenario de Brasilia, ciudad que creó y que hoy ve con decepción, y sobre el rol de la arquitectura en la sociedad.

Poco antes de cumplir los cien, Oscar Niemeyer tomó una decisión radical: en adelante, no haría nada que no le agradara. Por ejemplo, las entrevistas. Por su aniversario, las solicitudes de prensa estaban llegando a cada rato. El gran ícono mundial del modernismo alcanzaba el siglo de vida sin perder una gota de lucidez y aún diseñando proyectos. Es más: a los 98 se había casado por segunda vez, con su secretaria de siempre, 40 años menor: Vera Lucia Cabrera.

El arquitecto de las líneas curvas, el que decía inspirarse en las montañas de su país, en las olas del mar, en el cuerpo de la mujer preferida, quería una pausa. Pasaron dos años antes de que las solicitudes de entrevistas volvieran. Pero esta vez para hablar sobre Brasilia, la capital de Brasil que, junto con el urbanista Lucio Costa, levantó en medio de la nada y que el 21 de abril celebró sus primeros 50 años.

"Claro que estoy satisfecho por estar presente en este momento. Tengo mucho cariño por esta capital y por los brasileños", dice, por mail, desde su departamento en Ipanema, Río de Janeiro. Niemeyer sabe que estar presente y ser testigo de cómo resplandecen sus más de 500 obras alrededor del mundo es un privilegio. Y que eso se lo debe, en parte, a Vera. Ella lo cuida y lo ayuda a editar la revista de arte y arquitectura Nosso caminho, donde publica sus proyectos. Aún sigue diseñando y, cuando puede, va a su oficina en Copacabana, donde nietos y bisnietos le ayudan a ejecutarlos. Entre sus últimos trabajos se cuentan el Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, en la localidad de Avilés, España (considerado su mayor proyecto en Europa), y el rediseño de la llamada Praça da Soberania, una polémica obra que se construiría en la Esplanada Dos Ministerios de Brasilia para el cincuentenario de la ciudad, pero que se postergó por su alto costo y por las críticas que hubo entre arquitectos locales, que reclamaron que no había habido concurso previo: el gobierno federal se lo otorgó, así sin más, al mismo de siempre, a Oscar Niemeyer. El prefiere no entrar en ese debate. Sólo anuncia que continuará en el proyecto. "La arquitectura todavía me absorbe casi totalmente. Mi tiempo libre lo llenan la lectura y las conversaciones con amigos", confiesa. También le apasiona la cosmología. Toma clases hace cinco años con el físico Luiz Alberto Oliveira. "¡Cómo me entusiasma apreciar el contraste entre la grandeza del cosmos y la situación del ser humano, frágil, siempre corriendo el riesgo de desaparecer!"
Dibujar con los dedos en el aire

Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho nació el 15 de diciembre de 1907 en Laranjeiras, Río de Janeiro. Desde niño le encantó dibujar: cuando tenía 10 años solía hacerlo con sus dedos en el aire. Podía imaginar los dibujos e incluso corregirlos. "Ahora pienso diferente -dice-. La arquitectura está en mi cabeza. Soy capaz de hacer un proyecto sin usar un lápiz-. A los 21, cuando terminó el colegio, se casó con Annita Baldo, la mujer de quien enviudó en 2004. Con ella tuvo sólo una hija, Anna María (quien le dio cinco nietos, trece bisnietos y cuatro tataranietos). Tras graduarse como ingeniero arquitecto en la Escuela de Bellas Artes de Brasil, en 1934, comenzó a trabajar en el estudio del urbanista Lucio Costa. Allí conocería al futuro presidente Kubitschek, entonces alcalde de Belo Horizonte: en 1940, él le encargó la construcción de una iglesia a orillas del lago Pampulha. El resultado -un templo de novedosas líneas curvas adoptadas de la arquitectura modernista de Le Corbusier- le dio fama casi al inicio de su carrera. Años después trabajaría en el diseño de la sede de la ONU junto al propio Le Corbusier.

Fue en esa época cuando Niemeyer "salió a la vida" y vio que "el mundo era injusto", como ha dicho. Ateo e idealista, en 1945 se enroló en el Partido Comunista de Brasil, militancia que mantiene hasta hoy, la misma que durante la dictadura militar en los 60 le significó años de exilio en Francia (volvió a Brasil dos décadas después), y que llevó a Fidel Castro a decir que ellos eran "los últimos comunistas del planeta". Oscar Niemeyer hoy todavía cree firmemente en las utopías marxistas. "El marxismo contiene un mensaje imposible de despreciar. Alude a la posibilidad de un mundo más justo y solidario", sostiene. De hecho, la construcción de Brasilia, en 1960, nació producto de esas utopías. La idea del urbanista Lucio Costa -quien cuatro años antes había ganado el concurso promovido por el presidente Kubitschek para construir la nueva capital que reemplazaría a Río de Janeiro- era crear una ciudad moderna y perfecta, donde cada calle y conjunto habitacional fueran igualitarios, sin distinción de clases sociales. "Brasilia fue un momento extraño: vivíamos junto a los operarios, frecuentábamos los mismos clubes nocturnos, con la misma ropa -dijo Niemeyer en una entrevista-. Aquello daba una idea de que iba a desaparecer la barrera de clases. Pero era un sueño. Después vinieron los políticos, los hombres de dinero. Todo recomenzó: esa injusticia tan inmensa, tan difícil de reparar." Brasilia fue planeada para 500 mil habitantes, pero hoy viven allí más de dos millones de personas. Alrededor del llamado Plano Piloto ideado por Lucio Costa surgieron espontáneamente una veintena de ciudades-satélite, el transporte público no da abasto y los brasileños acomodados han salido de las supercuadras (el tipo de organización vecinal ícono de Brasilia, que suponía que todo estaría allí dentro: el colegio, el supermercado, la iglesia) para construir las casas en sitios más exclusivos y llevar a sus hijos a colegios privados. Sus habitantes han visto cómo en su ciudad se suceden los escándalos de corrupción: el más reciente, este año: la detención del gobernador de Brasilia José Roberto Arruda, acusado de intento de soborno a un testigo en la investigación de una red de tráfico de influencias en el gobierno del Distrito Federal. "El crecimiento desordenado de esta metrópolis, los problemas asociados con la densidad demográfica y la profundización de las disparidades y contrastes sociales han ensombrecido la vida de la nueva capital", reconoce hoy.

El fallecido intelectual brasileño Darcy Ribeiro dijo una vez que Niemeyer será el único compatriota que se recordará en los próximos 500 años. "Es ridículo ese asunto de darse importancia", ha dicho él. Sus pares lo han elegido el mejor arquitecto del siglo XX y ha recibido el premio de la Unesco en la categoría Cultura, entre decenas de reconocimientos. Sin embargo, su obra nunca ha estado ajena a las polémicas. "Cuando la arquitectura está bien hecha, es fácil de comprender. Mi arquitectura es así: con preocupación por la belleza. Quiere ser bonita, lógica y, principalmente, inventiva. A quien va a Brasilia le puede gustar o el Palacio. Pero lo que no puede decir es que vio antes cosa parecida." De todas formas, hoy está convencido de que la arquitectura jamás podrá cambiar a una sociedad, sino al contrario. "Si un día la sociedad se revelase más justa, habrá mejores condiciones para que los arquitectos conciban grandes obras públicas que todos los ciudadanos puedan usufructuar", dice.

Niemeyer cree que aún no ha hecho todo lo que soñaba. Uno de los proyectos que le gustaría emprender es un gran estadio de fútbol para la Copa del Mundo de 2014. Sin embargo, sabe que cada vez le queda menos tiempo de vida. "Tengo un sentimiento de rebeldía sobre ese destino que nos afecta a todos -confiesa-. Me gustaría tener la serenidad de Manuel Bandeira, quien así se expresó en un poema: Cuando la Indeseada de las Gentes llegue/ yo le diré: Hola, ineludible/ (...) Encontrará la casa limpia/ la mesa puesta/ cada cosa en su lugar." Después de vivir un siglo, Niemeyer ya comienza a ensayar su epitafio. "Me gustaría ser recordado como un hombre que pasó más de seis décadas sobre la mesa de trabajo, preocupado por su arquitectura, pero siempre listo para contribuir a la lucha política, a la superación de este régimen de clases que creó el capitalismo y que desmerece a la humanidad -dice-. Como alguien que siempre consideró que la vida es más importante que la arquitectura."

Lula, "Había una vez un niño muy pobre..."



Retrato del hombre y líder popular antes que del presidente, la película más cara de la historia del cine brasileño se estrena aquí a una semana de las elecciones generales en el país vecino. Luiz Carlos Barreto, mentor de El hijo de Brasil , contó a LN R mucho más sobre esta historia, que podría empezar como un cuento de hadas

Por Alberto Armendariz (corresponsal en Brasil)
La Nación (26/9/10)

RIO DE JANEIRO.- Acostumbrado a recorrer el mundo desde los años 50, primero como periodista de la revista O Cruzeiro y luego como productor cinematográfico, al empresario Luiz Carlos Barreto siempre le preguntaban, en sus viajes, por el carnaval de Río de Janeiro, las garotas de Ipanema, Pelé, Garrincha, Niemeyer y Senna; las postales más conocidas de Brasil en el exterior. Nunca nadie se interesaba por la política de su país..., hasta el año 2002, cuando Luiz Inácio Lula da Silva ganó las elecciones presidenciales.

"Era impresionante; los porteros de los hoteles, los taxistas, los empresarios y hasta las figuras artísticas comenzaron a preguntarme mucho sobre él. Fue entonces cuando me di cuenta de que sabía muy poco de su historia personal; conocía su carrera política como líder sindical que había luchado contra la dictadura, pero no sabía mucho del hombre detrás de esa historia", cuenta Barreto, de 82 años, a LNR, en una entrevista para conocer los orígenes de la película Lula, el hijo del Brasil, que él produjo, su hijo Fábio dirigió, y que se convirtió en el film más caro de la historia de Brasil.

La película está basada en el libro homónimo de la socióloga Denise Paraná, quien había sido asistente de Lula cuándo éste comandaba el Sindicato de Metalúrgicos. A Barreto le recomendó leer el libro su amigo y ex periodista Gilberto Carvalho, hoy secretario privado del presidente de Brasil. Cuenta los orígenes de Lula hasta que es elegido mandatario, y la fuerte relación que lo unía a su madre, Eurídice Ferreira de Melo, familiarmente conocida como "Dona Lindu". La veterana actriz Gloria Pires interpreta a la madre, y el novato Rui Ricardo Dias hace el papel de Lula.

En el amplio departamento de Barreto frente al parque Guinle, en el barrio carioca de Laranjeiras, se respira cine. Decenas de fotos con actores y directores, locales e internacionales, descansan sobre un gran piano de cola en medio de living. Libros sobre la historia del séptimo arte, guiones y cientos de DVD inundan la biblioteca de quien es considerado uno de los mayores productores de cine de Brasil, detrás de títulos que marcaron época, como Qué sabroso era mi francés (1971), de Nelson Pereira dos Santos; Doña Flor y sus dos maridos (1976), dirigida por su otro hijo, Bruno (la película brasileña más exitosa de todos los tiempos); Bye Bye Brazil (1979), de Carlos Diegues, y las nominadas a premios Oscar como Mejor Película Extranjera El cuarteto (1995) y Cuatro días en septiembre (1997), dirigidas por Fábio y Bruno Barreto, respectivamente.

A un lado del gran ventanal con espectaculares vistas al Pan de Azúcar, una fotografía de Lula con Carlos y Fábio Barreto ocupa un lugar especial. Con cierta melancolía, Barreto la muestra y recuerda que fue tomada justo después de finalizar el rodaje, que los llevó desde las humildes tierras de Pernambuco donde Lula nació hasta el cinturón industrial de San Pablo, donde se volvió líder de los metalúrgicos primero y luego del Partido de los Trabajadores (PT).

Poco después de que aquella imagen tripartita fuera registrada, la noche del 19 de diciembre del año pasado, Fábio Barreto sufrió un accidente automovilístico en el barrio de Botafogo que lo dejó en coma hasta ahora. "Está mejor, con sus neuronas recuperando la actividad poco a poco. Entra y sale de su estado de inconsciencia todo el tiempo", explica su padre.

En medio del drama familiar, frente a la crítica de los medios que acusaban a los Barreto de haber hecho propaganda del gobierno y con la gran expectativa de los distribuidores, Lula, el hijo del Brasil se estrenó en su tierra el 1° de enero de este año. La reacción del público fue decepcionante. Si bien se esperaba que la vieran entre 3 y 7 millones de personas, en los cines tuvo 1,1 millón de espectadores.

"La película fue víctima de muchos errores nuestros. El 80% de los errores comerciales nos pertenecen, y el otro 20% los atribuyo a la politización que hicieron los medios", explica Barreto.

Entre las equivocaciones que reconoce como propias, señala como la más importante la fecha de estreno, porque el film tuvo que competir con la arrasadora Avatar, de James Cameron. Y, encima, en plenas vacaciones, cuando todos prefieren ir a ver comedias o películas de acción, o acompañan a sus niños en plan de aventuras . Pero la cobertura de los medios aportó otro tanto al "fracaso".

"Hubo una clara intención para caracterizar la película como un panfleto propagandístico. Creo que si hubiésemos lanzado el film en enero próximo, con Lula ya fuera de la presidencia, la historia hubiera sido bien distinta."

-¿No se les había ocurrido que sería politizada, sobre todo en un contexto de precampaña, cuando Lula buscaba promocionar a su ex jefa de Gabinete, Dilma Rousseff, como candidata a sucederlo?

-Muchos amigos y socios me dijeron de esperar, pero yo no tengo el vicio latino de homenajear sólo a los muertos. No quería esperar a que Lula se muriera o dejase el poder; Lula siempre tendrá poder, aun cuando muerto, como sucede con Getúlio Vargas o con Perón. En verdad, la película es la historia de una madre. Lula no es ni marxista ni leninista; no tiene una ideología específica. Su ideología de vida viene de su madre; el film está marcado por frases de filosofía popular de ella, una analfabeta, y cómo lo empujó a avanzar, a ser mejor. Es una historia clásica de superación humana. Podría haber empezado como cualquier cuento de hadas... "Había una vez un niño muy pobre...". Pero no es una biografía, es un retrato de sólo una parte de su vida. Terminamos la trama justo cuando murió su madre y agregamos el epílogo de cuando él fue elegido presidente para darle mayor contexto.

-¿No cree que si aún está en ejercicio de cierta manera rinde culto al presidente?

-La película no tiene ninguna intención de glorificar a Lula; lo muestra como un ser humano, con los defectos y virtudes de cualquiera. El mismo dice en una parte que lo que tiene de bueno se lo debe a su madre y lo malo, a su padre. Lo que mostramos en la película no es más que un 10% de las maldades que su padre hizo. Es más, en un momento, de niño, casi lo mató con un golpe de remo. La familia, los hermanos, nos ayudaron mucho desde el punto de vista del archivo. Y con Lula tuvimos un encuentro para despejar algunas dudas que sólo él podía confirmar o negar.

-Aunque la película no recibió apoyo financiero del Estado, se le criticó mucho la megaproducción que resultó y que la mayoría de los sponsors estuvieran ligados al gobierno a través de contratos, como Volkswagen, Odebrecht, Grendene...

-La composición financiera para la filmación costó 12 millones de reales (unos 7 millones de dólares), de los cuales la mayoría fue de socios cinematográficos. Globo Filmes puso 1,5 millones; Europafilms aportó 2,5 millones; y nosotros, los Barreto, pusimos 4 millones gracias a un préstamo bancario. El resto del dinero vino de los sponsors, en muchos casos a través de la colocación de productos, y otros patrocinadores facilitaron instalaciones para filmar. Siempre encaramos nuestros proyectos pensando en hacer la película con todos los recursos técnicos y artísticos para tener un producto competitivo y en función de las historias, no en hacer una película de producción exhibicionista.

-¿Cuál fue la reacción de Lula al ver el film?

-Quedó muy emocionado. Cuando terminó, no tenía voz para hablar. Para él fue como una sesión de psicoanálisis ilustrado.

Hoy, con "Lula, el hijo del Brasil" ya en alquiler y a la venta en copias piratas, se cree que la han visto unos 5 millones de brasileños. Han ayudado mucho los líderes sindicalistas del interior y todo el aparato del Partido de los Trabajadores, que la muestran sobre camiones en plazas de pueblos, al aire libre.

En tanto, los productores están en negociaciones con Globo y otras cadenas de televisión para transformar el guión original en una miniserie. Dependerá cómo quede el ambiente político tras las elecciones generales del 3 de octubre.

Por lo pronto, la cinta comenzó a estrenarse comercialmente fuera de Brasil, con la Argentina como trampolín, ya que Costa Films, de Eduardo Costantini (h.), es uno de los coproductores y tiene a su cargo la distribución para América latina.

"Mi expectativa con el estreno en la Argentina es de una buena recepción inicial de los formadores de opinión, porque no existe la pasión política que hubo aquí y los argentinos tienen una buena imagen de Lula en todas las clases sociales, según he podido constatar por mis visitas. Estoy seguro de que será mejor entendida que aquí", destaca Barreto.

En los Estados Unidos recién se estrenará en febrero próximo, pero el presidente Barack Obama ya pidió verla. Y Barreto le envió una copia subtitulada a través de la embajada en Brasil. "No sé si ya la vio. Creo que su historia es tanto o más interesante que la de Lula".

Por Alberto Armendariz (Corresponsal en Brasil)
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QUIEN ES QUIEN DETRAS DE CAMARAS
Fabio Barreto (director)

Nacido en Río de Janeiro en 1957, el hijo de Luiz Carlos Barreto dio sus primeros pasos en el cine como actor en los films experimentales de su hermano mayor, Bruno, director de éxitos como Doña Flor y sus dos maridos y Ultima parada 174. Fue asistente de dirección del maestro Carlos Diegues en Bye Bye Brazil y luego comenzó una nutrida carrera como guionista, productor y director de nueve películas. La primera película que dirigió, India, la hija del sol, fue presentada en el Festival de Cannes, y luego, en 1995, El cuarteto fue nominada a un Oscar a la Mejor Película Extranjera. Padre de tres hijos, está casado desde 2003 con la actriz Deborah Kalume, a quien dirigió en varios episodios de la versión brasilera de la serie televisiva Amas de casas desesperadas. El 19 de diciembre último, poco antes de estrenarse Lula, el hijo del Brasil, sufrió un accidente automovilístico que lo dejó en coma. Tras un intenso tratamiento hospitalario, se recupera en su casa, pero sigue inconsciente.
Luiz Carlos Barreto (productor)

Ex periodista, fotógrafo, director y guionista, es considerado una figura clave del Cinema Novo, que revolucionó el cine en América latina, y es hoy uno de los mayores productores de Brasil junto a su esposa, Lucy, y a su hija Paula. Juntos han producido más de 80 películas, entre ellas, Doña Flor..., Qué sabroso era mi francés, Asalto al tren pagador y las nominadas al Oscar Cuatro días en septiembre y El cuarteto, de sus hijos Bruno y Fábio, respectivamente. Nacido en 1928 en Ceará, en el nordeste del país, es el patriarca de una amplia familia que se ha dedicado al cine; no sólo sus tres hijos, sino también sus nietas Helena y Julia.
Eduardo Costantini hijo (coproductor)

A través de su productora, Costa Films, fundada en 2006, el hijo del empresario y mecenas artístico argentino Eduardo Costantini produce, financia y distribuye películas con talentos latinoamericanos alrededor del mundo. Su primera incursión fue con la exitosísima Tropa de elite, dirigida por el brasileño José Padilha; le siguieron The Burning Plain, de Guillermo Arriaga, y Lula, el hijo del Brasil, de Barreto. En carpeta se trae la gran producción de Noticias de un secuestro, dirigida por el mexicano Pedro Pablo Ybarra y basada en el libro de Gabriel García Márquez. Además, está desarrollando el proyecto Two/One, del argentino Juan Cabral.
Gloria Pires ("Dona Lindu", la madre de Lula)

Nacida en 1963, la carioca Gloria Pires es una de las caras más reconocidas de la TV y el cine de Brasil. Desde su debut en la telenovela a los cinco años, ha realizado numerosas novelas y miniseries, pero también posee una sólida carrera en la pantalla grande, con películas como India, la hija del sol, El cuarteto, Memorias de la cárcel, Pequeño diccionario moroso, y los éxitos de taquilla Se eu fosse você I y II. Su hija, la actriz Cléo Pires -de su primer matrimonio con el cantante Fábio Jr.- también participó en Lula, el hijo de Brasil", como la primera esposa de Lula, Lourdes.
Rui Ricardo Dias (Luiz Inácio Lula da Silva)

Para este oriundo de Minas Gerais, de 32 años, encarnar al líder sindicalista que se convirtió en el actual presidente de Brasil representó su debut cinematográfico. Antes había trabajado en teatro en San Pablo, tomó cursos de mimo en Londres y apareció en 9mm de São Paulo, la primera serie policial producida por Fox Brasil.

sábado, 25 de setembro de 2010

Na avenida Santa Fé, em Buenos Aires...





Fotos: Miguel Arcanjo Prado

Crítica do LA NACIÓN

Retrato sin matices del presidente de Brasil

Más cerca del manual de historia que del cine


Por Natalia Trzenko

Lula, el hijo de Brasil (Lula, O Filho do Brasil, Brasil-Argentina/2009). Dirección: Fábio Barreto. Con Rui Ricardo Diaz, Glória Pires, Cléo Pires, Juliana Baroni, Milhem Cortaz, Lucélia Santos, Antônio Pitanga. Guión: Daniel Tendler, Denise Paraná, Fernando Bonassi, basado en el libro Lula, O Filho do Brasil, de Denise Paraná. Fotografía: Gustavo Hadba. Música: Antônio Pinto y Jaques Morelenbaum. Edición: Letícia Giffoni. Dirección de arte: Clóvis Bueno. 128 minutos. Apta para mayores de 13 años.
Nuestra opinión: regular

La increíble historia de vida de Lula Da Silva se merecía una película mejor, más interesante y profunda que Lula, el hijo de Brasil . Desde el humilde comienzo en el estado de Pernambuco hasta llegar a la dirigencia del sindicato de obreros metalúrgicos, cada episodio de la vida del presidente de Brasil es mostrado como si se tratara de un manual de historia escrito por su biógrafo oficial.

El relato comienza en una choza dónde nace Luiz Inacio, séptimo hijo de padres campesinos y analfabetos que más tarde mudan a toda su prole a Santos, en San Pablo. Allí, el espíritu luchador de la madre, doña Lindu, interpretada con maestría por Glória Pires, contrasta con la violencia y el alcoholismo del padre, un villano sin matices que persigue a sus hijos a golpes cuando descubre que van a la escuela.

De los humildes comienzos a la adultez con empleo y título de técnico tornero, según la película Lula va por la vida tranquilo a pesar de ser víctima del desempleo y un accidente de trabajo que mutila su mano. Así, aunque el film intenta mostrar al político bajo la luz más favorable, de hecho, el guión lo representa apático y poco interesado en la realidad de su país. Algo que cambiará cuando su primera esposa y su primogénito fallezcan y él comience a dedicarle todos sus esfuerzos al sindicato para evitar pensar en su tragedia.

Al actor debutante en cine Rui Ricardo Diaz le tocó la complicada tarea de interpretar al actual presidente de su país además de una figura de peso para la política internacional y el imaginario de toda una región. A pesar del desafío, Díaz logra un retrato creíble hasta donde el limitado y superficial guión y la poco inspirada tarea del director Fábio Barreto se lo permiten.

Más allá de la razonable dificultad de reproducir en un largometraje la vida de una persona pública en la plenitud, los realizadores de Lula , apenasaprovechan las posibilidades cinematográficas que esa vida les provee. Cuando lo hacen, como en la escena en la que Lula habla sin micrófono ante una multitud que repite sus palabras para que lo escuchen a la distancia, se puede vislumbrar la película que podría haber sido y no es.

Crítica do CLARÍN

Errores del amor ciego

Crítica “Lula, el hijo del Brasil” Es antes propaganda política que una buena película

Por Pablo Scholz

A veces, cuando se pretende homenajear a una figura, el resultado, en lugar de vanagloriarla, la destiñe. Es lo que sucede en Lula, el hijo del Brasil , rodada y estrenada en pleno auge de popularidad del líder brasileño, y cuyos déficits son superiores a algunas cuestiones propias de una megaproducción como ésta.

La película es un panegírico sobre Luis Inacio Lula da Silva, desde su nacimiento hasta que alcanza la primera magistratura del país vecino. Son cinco décadas también de historia brasileña, contada a grandes pinceladas con todos los clisés, y tratando de pivotear en distintos aspectos de la vida y trayectoria del líder metalúrgico. Se pasa por el abandono y el posterior maltrato del padre de Lula hacia él, su madre y sus numerosos hermanos (el propio Lula dijo, ante el estreno en Brasil, no recordar que su progenitor fuera tan violento), el viaje a San Pablo, su primer amor, las penurias económicas, inundaciones, el nacimiento de su hijo muerto y el deceso de su primera esposa, su casamiento, la relación con su madre, los compañeros del sindicato y el rápido ascenso político.

Es claro el deseo de Fábio Barreto, el director, por ensalzar a su protagonista, desde lo enérgico que lo pinta para comandar las masas hasta lo “canchero” que resulta al seducir a la que será su segunda esposa. La escena en la que Lula se saca de encima a un pretendiente de ella, es elocuente. Lo que no se ve es su ambición por presidir Brasil: sólo al final, con sobreimpresos, se cuenta que falló en tres intentos por ser electo. “Necesito tener ocupada mi cabeza” es todo lo que se le escucha decir, antes de postularse como primer secretario de su sindicato, luego de las muertes de su esposa e hijo. Están las huelgas, el golpe de Estado, la fuerte presencia de su madre, su devoción por el Corinthians, la cárcel y el acceso a la presidencia, todo enmarcado en una biopic partidista. Rui Ricardo Diaz no está mal interpretando a Lula, pero no logra levantar el entusiasmo en los 127 minutos que dura esta coproducción argentina brasileña (Costa Films, por nuestro país). Cuestión al margen, el filme se estrenó en Brasil este año, en el que se está a punto de elegir nuevo presidente tras dos mandatos de Lula. Vista como propaganda política, se entiende. Pero si no...

LA FICHA

Lula, el hijo del Brasil
Drama (Brasil, Argentina, 2010) 127’ SAM 13 Direccion Fábio Barreto Interpretes Rui Ricardo Diaz, Glória Piers salas Abasto, Cinemark Palermo, Showcase Belgrano
Regular