terça-feira, 10 de março de 2009

A gracinha faz 80 anos



Por Miguel Arcanjo Prado*

Ícone feminino, Hebe Camargo completa 80 anos hoje, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. As oito décadas poderiam ser um conto de fadas: de gata borralheira, a apresentadora se tornou a dama da TV brasileira.

“Nunca menti idade. Agora, não é que eu me preocupe. É que eu fico com peninha, porque o tempo é mais curto. Sobra pouco para me divertir e gozar a vida”, afirma a apresentadora, que recebeu o Agora, na última segunda, em seu camarim, no SBT.

Hebe falou sobre sua trajetória na TV _ela foi reprovada no primeiro teste_ e do momento atual. “Enquanto tiver essa saúde fantástica, quero me divertir. Vou fazer TV enquanto estiver alegre, feliz, brincando no palco. Quando ficar uma coisinha meio murcha, eu digo: ‘Bye, bye, Brasil’.”

Mas o dia é de comemoração, e Hebe só quer festejar. Além de ganhar quatro programas especiais no SBT, a apresentadora terá uma festa “black tie” hoje à noite, na mansão da empresária e amiga Lucília Diniz, em São Paulo. Ela, que não quis saber dos detalhes da comemoração, diz que tudo será uma grande surpresa.

No banquete, para 500 convidados, não faltarão presenças ilustres. O prefeito Gilberto Kassab, o governador José Serra e até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão entre os convidados. À la Hebe, todos ganharão uma joia de lembrança.

Infância pobre

As muitas joias de hoje contrastam com a vida da menina do interior. Vinda de Taubaté para a capital paulista, Hebe morou em um porão. Filha da dona-de-casa Ester e de um violinista de nome complicado, Sigesfredo Camargo, que logo virou apenas o seu Fego, a garota tinha como passatempo adivinhar quem passava na rua. “Ficava brincando de adivinhar se eram pés de homem ou de mulher”, recorda.

Como a grana era curta _com o fim do cinema mudo, o pai havia perdido o emprego no cinema de Taubaté_, Hebe trabalhou como empregada na casa de uma tia rica.

Ao rever o começo difícil, a dama da TV não faz drama. “Passei as dificuldades pelas quais todo mundo passa, de quem não é nada e precisa conseguir uma chance. Precisava limpar a cozinha da minha tia para conseguir dinheiro para pagar o bonde e ir cantar em programas de calouro”, diz. De microfone em microfone, emancipou-se. “Ia cantar, independentemente do quanto iria ganhar. Ganhava uma ‘porcariinha’, mas, de qualquer maneira, era uma ‘porcariinha’ que fazia toda a diferença”, recorda.

Hebe chegou a participar de um quarteto com a irmã, Stella, e duas primas, o Dó-Ré-Mi-Fá, que logo acabou. Depois, foi a vez de fazer a dupla Rosalinda e Florisbela, com Stella. Mas a luz própria projetou o voo solo. Fã de Carmen Miranda, logo virou a Moreninha do Samba. Os cabelos loiros só seriam incorporados ao visual em 1957, quando engrenou na televisão.

Reprovada no teste

Misturada desde cedo à turma do rádio, Hebe fez parte da comitiva que acompanhou o todo-poderoso das comunicações Assis Chateaubriand (1891-1968) ao porto de Santos para buscar a parafernália eletrônica que inauguraria a televisão no Brasil, em 1950. “Era completamente ignorante, não sabia de nada. Via os caminhões e achava que os caixotes iam começar a filmar todo mundo [risos]. Fiquei sem ar ao ver aquelas coisas saindo do navio. Teve um grande almoço no Guarujá, com o Chateaubriand, o Dermival Costa Lima [diretor da Tupi], a Sarita Campos [apresentadora da Tupi], o Walter Forster [ator que mais tarde daria o primeiro beijo da TV, na atriz Vida Alves]. Guardo até hoje a foto em que estou de vestidinho estampado.”

Pode até soar estranho, mas Hebe não passou no primeiro teste. “Fui reprovada. Fizeram o teste no corredor mesmo. Montaram as câmeras e me colocaram na frente. E disseram: ‘Está reprovada. Essa imagem está horrível’. É que a minha sobrancelha era igual à da Malu Mader, bem grossa, e eles diziam que a imagem estava escura. Mas eles não tinham técnicas de iluminação. Não é engraçada essa história? Fui reprovada e estou aqui até hoje. Já os que me aplicaram o teste morreram todos.”

Hebe teve padrinhos, mas não gosta de enumerá-los. “É porque todo mundo já morreu. Tem o Dermival Costa Lima, que era diretor da rádio Tupi, teve o Gilberto Martins [diretor da Tupi], que também já morreu. Está vendo? Se continuarmos falando nisso, vamos parar no cemitério [risos].”

Feminista e dona-de-casa

Hebe teve sua grande chance em 1955, quando recebeu o convite do galã que virou diretor. “Fui convidada pelo Walter Forster, criador do programa ‘O Mundo É das Mulheres’. Era feito por cinco mulheres. Toda semana, a gente convidava um homem. No momento do encerramento da entrevista, pressionávamos o entrevistado a dizer que o mundo era das mulheres. Mas não era coisa nenhuma! As mulheres naquela época não tinham evidência. Elas não saíam de casa para trabalhar, eram mais donas-de-casa, mulheres e mães. Foi daí que começou essa coisa de as mulheres arregaçarem as mangas”, analisa.

Mesmo antecipando o discurso feminista, Hebe sucumbiu à regra de comportamento de seu tempo. Ao se casar, em julho de 1964, com o empresário Décio Capuano, resolveu que tinha de abandonar a TV. No ano seguinte, nasceu seu primeiro e único filho, Marcello Camargo. “Achei que, como iria me casar, tinha de ser dona-de-casa”, afirma.

Mas a televisão não aceitou perdê-la para o marido. “Nunca paravam de me enviar convite. Um dia, fui com meu filho, o Marcello, que só tinha 30 dias, participar do programa ‘Corte Rayol Show’, que era feito pelo Agnaldo Rayol e pelo Renato Corte Real, na Record. Ao saber que eu estava na emissora, Paulinho Machado de Carvalho [então diretor da emissora] foi ao camarim e falou: ‘A gente queria demais que você voltasse para a televisão.’ O Décio acabou concordando, e eu voltei para nunca mais sair.”

Tempos modernos

O casamento com Capuano acabou em 1971. Dois anos depois, casou-se com o empresário Lélio Ravagnani, que, ao contrário do primeiro, não se opunha à carreira da mulher. Ficaram juntos até a morte dele, em 2000. Após a Record, foi para a Band, no final dos anos 70, onde ficou por quatro anos. Em 1985, Silvio Santos a chamou para ser a estrela do SBT. Hebe está na emissora há 23 anos _e renovou contrato recentemente por mais quatro anos.

“A TV é minha vida. A partir dela, comecei a aparecer, e o Brasil começou a me prestigiar. Se o público não quiser, nada acontece. Sou grata a ele.” A loira diz ainda se surpreender com as manifestações. “Vejo rapazinhos de 15 e 16 anos me pedindo um selinho. Mas não me sinto um mito.”

Flagra no banheiro

Mas o fato é que Hebe tem a admiração de artistas do primeiro time. O colega de emissora Gugu Liberato tenta defini-la: “É uma pessoa especial, com uma carreira impecável. É o tipo de pessoa que trabalha por amor, daí vem seu brilho, sua luz!”.

Gugu conta um episódio que mostra a irreverência de Hebe. “Estava hospedado em um hotel de Salvador. Ela também estava, mas não sabia. Ela fez então uma surpresa, entrando em meu apartamento. Só que eu estava tomando banho! E ela, com seu bom humor de sempre, entrou no banheiro fazendo a maior festa, sem se importar com a situação na qual me encontrou. Foi muito divertido”, diz.

A apresentadora da Globo Ana Maria Braga ficou amiga de Hebe quando as duas frequentavam o mesmo salão. “Durante anos, nos víamos semanalmente, no antigo Colonial. Dávamos sempre boas risadas. Hebe é uma companhia inigualável”, afirma. Para Ana Maria, a “exuberância e a alegria de viver” são marcas registradas de Hebe.

A turma da música também vê Hebe com carinho. Irreverente, Alexandre Pires deseja a ela “muito sexo, amor e paixão” nestes 80 anos. Beth Carvalho lembra a primeira ida ao programa. “Foi no começo dos anos 70. Fiquei impressionada com a forma direta de comunicação com o público.” Margareth Menezes também se lembra da primeira vez: “Fui cantar ‘Elegibô’. Estava com medo. Era uma nordestina de Salvador chegando a São Paulo. Hebe me recebeu com toda a simpatia”. Beth tem uma teoria sobre a longevidade de Hebe em frente às câmeras. “É porque ela não envelheceu.”

Roqueira tatuada

Quem convive com Hebe é certeiro ao responder que atrasos a irritam. É o que dizem Ariel Jacobowitz, diretor do programa “Hebe” há seis meses, e Regina de Souza, produtora-executiva da atração há mais de 20 anos. Regina lembra um episódio engraçado. “Ela se vestiu de roqueira, toda de couro, com uma peruca enorme encaracolada e uma tatuagem de cobra na barriga. Ela entrou no palco com uma guitarra e a jogou para a plateia. Na hora, todo mundo se assustou, mas depois rimos muito.” Ariel define Hebe como uma “profissional de primeira”. “É pontual e gosta de tudo muito organizado. Quero chegar à idade dela assim. É de dar inveja.”

Para quem ainda se admira com as “travessuras” de Hebe, que hoje é conhecida por seus selinhos, a apresentadora surpreende também em seus 80 anos. Ela poderia dar uma volta ao mundo, mas escolheu um parque de diversões para brindar com os amigos seus 80 anos.

Depois da festa de arromba desta noite, Hebe planeja uma comemoração menos formal. No dia 17, embarca com um grupo de amigos para a Disneylândia (EUA). “Muita gente caçoou de eu fazer minha festa na Disney. Mas não é uma festa de criancinha. É uma festa de adulto, para a gente se sentir criança. Porque na Disney, em qualquer canto, você se sente criança. Quer coisa melhor do que você ter 80 anos e poder se sentir criança?”. Realmente, em matéria de vitalidade, Hebe é imbatível.

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O grande exemplo para Galisteu

Apontada como provável sucessora de Hebe, Adriane Galisteu se inspira na apresentadora. “A Hebe é sem dúvida uma inspiração para mim como profissional. Ela é essa fonte eterna de alegria, vida, prazer e emoção”, afirma. Adriane, que diz colecionar histórias com Hebe, conta uma delas. “Foi no aniversário dela de dois anos atrás, que passamos só eu, ela e nossas famílias. Foi um momento de grande intimidade.”

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Com Lolita, apresentadora construiu amizade de 65 anos

Aos 15 anos, Hebe conheceu uma jovem da sua idade, que tinha sonhos parecidos com os seus: Lolita Rodrigues, que faz 80 anos depois de amanhã. “A Lolita sempre se gabou de ser dois dias mais nova que eu [risos]”, lembra Hebe.

Foi Lolita quem cantou no lugar de Hebe o “Hino da Televisão”, na chegada da TV ao país. “São 65 anos de amizade. Quando nos conhecemos, cantava na Cultura, e ela, na Tupi. Ficamos tão grudadas que, quando o seu Fego [pai de Hebe] estava para morrer, ele me disse que eu era a sétima filha dele”, conta Lolita.

Em 1950, a dupla se transformou em trio, com a companhia da atriz Nair Bello, que morreu em 2007. “Não podíamos ir juntas a velório, porque sempre acontecia alguma coisa e a gente caía na risada”, recorda Lolita, às gargalhadas. Ela lembra que salvou a vida de Hebe. “Fomos para Recife. De repente, olho para o mar e cadê a Hebe? Fui correndo tirá-la de lá. Foi um susto!”

Para Lolita, das três, Hebe sempre foi a mais espevitada. “É um caso raro, merece ser estudada por cientistas. Me dá vontade de dar um murro nela. Sabe como a Nair chamava a Hebe de brincadeira? De velhinha filha da puta.”

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"Hebe é uma pessoa especial, com uma carreira impecável e um caráter raro. É o tipo de pessoa que trabalha por amor, daí vem seu brilho, sua luz"
Gugu Liberato, apresentador


"Hebe conquistou o título de maior apresentadora da TV brasileira por ser uma mulher sempre à frente do seu tempo. Ela não poupa elogios e críticas a ninguém"
Ana Maria Braga, apresentadora



"Passei as dificuldades pelas quais todo mundo passa. Precisava limpar a cozinha da minha tia para ganhar dinheiro para o bonde"
Hebe Camargo, apresentadora


"Muita gente caçoou da minha festa na Disney. Lá, você se sente criança. Quer coisa melhor do que você ter 80 anos e poder ainda se sentir criança?"
Hebe Camargo, apresentadora




Reportagem de capa da Revista da Hora do jornal Agora São Paulo de domingo, 8 de março de 2009. Fotos de Lourival Ribeiro/SBT/Divulgação

2 comentários:

BLVM disse...

Eu tinha lido essa bela matéria no dia 8 mesmo que, além de ser aniversário da grande Hebe, é meu também! :)

Gui Sillva disse...

acho a Hebe hilária!!!
adoro.